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Opinião20/07/2020 | 11h28Atualizada em 20/07/2020 | 11h28

Sandra Cecília Peradelles: o sexo e as mulheres

Falar de sexualidade feminina é falar de autoestima, educação e segurança

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

Flora, de 76 anos, é viúva, foi casada durante 45 anos, nunca teve um orgasmo. Helena tem 45 anos, está num relacionamento estável há uma década, também não. Michele, no auge dos seus 25 anos, curtindo sua juventude, não tem certeza se já chegou lá. Estes são nomes fictícios, mas todas as histórias são reais. Quais barreiras se apresentam entre nós, mulheres, e o orgasmo? O que nos impede de usufruir da plenitude do prazer sexual? 

Falar de sexualidade feminina é falar de autoestima, educação e segurança, a meu ver. Uma vez que carregamos no DNA o peso de um mundo machista, ceifador de nossas liberdades individuais e coletivas por séculos, não é surpresa que o sexo ainda seja de dura compreensão para muitas de nós.

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Desde muito cedo o homem é incentivado a buscar sexo, seja como satisfação pessoal ou como troféu para exibir sua macheza. Além disso, tem o início de sua vida sexual galgada em imagens surreais de filmes pornográficos, altamente falocêntricos, onde seu prazer é priorizado e a violência contra a parceira é motivo de excitação. Já a vida sexual da mulher vem carregada de medo e culpa, onde a perspectiva de sexo está diretamente ligada a consequência do ato, não ao prazer. 

Desde criança  os corpos femininos estão sob constante vigilância. Nos dizem como sentar, o que falar, como agir. Toda menina já escutou para se comportar como uma moça ou ser uma princesa. Acontece que moças e princesas não são seres sexuais, são seres míticos perfeitos. Acontece, também, que nós, mulheres, somos muito humanas, ossos cobertos de carne. Simples assim! 

Um abismo profundo que existe entre nós e o orgasmo é a lenda de que as mulheres só fazer sexo por amor e, que, sem esse nobre sentimento não há pra nós prazer. Balela! Nossos corpos humanos anseiam pelo prazer como o de todo homem. Sem dúvidas, somos seres diferentes, emocional e fisicamente. Temos nossas particularidades, mas não ao ponto da nossa fisiologia negar o que há de mais natural na humanidade. Orgasmo não é prêmio, é um direito que todos temos. Chegar ao ápice do prazer corporal é divino. 

Não sou sexóloga, psicóloga ou afins. Sou uma mulher qualquer que vive a realidade junto às minhas irmãs, nascidas de ventres distintos. Sou uma dessas que carrega bandeira e fardo de vida muitíssimo pesado, compreende que a barreira que se interpõe entre o feminino e o prazer existe, mas precisa ruir. 

Como fazer isso? Não tenho uma fórmula, não sei se existe. Mas sei que o caminho a percorrer está totalmente ligado ao autoconhecimento e a autovalorização. Conhecer e ter apropriação de nossos corpos e órgãos sexuais é um passo. Enxergar a si antes do outro, mais um passo. Escutar nossos desejos e dar voz às vontades que guardamos, outro passo. E, assim, andando devagar, um dia a gente pode correr. Essa maratona é nossa, merecemos chegar lá.  

Concluo afirmando: sexo não é pecado, não é incorreto, não é vil. Sexo é saúde, é salvação, é transcendência. Com consentimento e respeito é, também, libertador. Merecemos viver em liberdade. 

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