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Opinião03/07/2020 | 15h51Atualizada em 03/07/2020 | 15h51

Pedro Guerra: sem vergonha de ser feliz

Tentei entender porque é que temos vergonha da nossa felicidade quando ela se manifesta ao acaso, da forma mais genuína possível

Pedro Guerra: sem vergonha de ser feliz Antonio Giacomin / Divulgação/Divulgação
Foto: Antonio Giacomin / Divulgação / Divulgação

Semana passada eu estava dirigindo e uma das minhas músicas favoritas começou a tocar no rádio. Aproveitei o semáforo vermelho e aumentei um pouco o volume, e naquele momento eu nem pensei sobre como nós curtimos muito mais uma música conhecida que começa a tocar assim, do nada, do que se nós mesmos tivéssemos a escolhido para tocar. Com o som preenchendo o carro, cantarolei toda a letra bem alto, e acho até que meus pulmões vibravam mais do que os vidros da janela. Fiz isso durante boa parte do trajeto, e quando a música estava chegando ao fim, veio outro sinal fechado. E foi aí que eu olhei para o lado e vi alguém me encarando.

A minha reação foi óbvia mas sem sentido algum: imediatamente baixei o volume do rádio e fingi que nada estava acontecendo. Forcei um sorriso amarelo sem nem planejar e em questão de segundos estava com o olhar de volta para a rua na minha frente. Corado de vergonha, como uma criança que acaba de fazer algo de errado e mesmo assim tenta passar impune, quis me enfiar dentro de um buraco. Mas já era tarde demais, alguém tinha me visto sendo feliz.

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Pensei muito sobre isso quando cheguei em casa. Tentei entender porque é que temos vergonha da nossa felicidade quando ela se manifesta ao acaso, da forma mais genuína possível. Fiz esse exercício porque aquela não era a primeira vez em que eu sentia vergonha por estar sendo eu mesmo, e até lembrei de um videoclipe antigo da Alanis Morissette chamando Ironic onde ela dirige com outras versões de si mesma e canta como se o dia seguinte não existisse. Acontece que até agora não encontrei uma resposta, mas me prometi que aquela seria a última vez em que eu ficaria tímido por estar sentindo toda a liberdade que a combinação carro + música favorita pode oferecer.

Desde então, dirigi mais algumas vezes e em todas elas fiz questão de colocar a minha playlist favorita para tocar. Procurei ignorar o mundo ao meu redor e gritei cada verso de várias músicas com tanta vontade e entusiasmo quanto torcedor de time de futebol em jogo de final. É claro que recebi olhares estranhos, até mesmo de pedestres que olharam para dentro do carro e viram um motorista falando sozinho, já que não havia ninguém no banco do passageiro.

Lembrei de outra música, tão clássica e clichê, mas que casava perfeitamente com aquela cena. Foi como se cada placa ou avisos de trânsito pintados no asfalto se transformassem naquela letra: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar...”

Sendo assim, cantei. Mesmo nos semáforos fechados. E para cada olhar estranho, revidei com um sorriso largo de quem dizia: aproveite, o show é de graça. Tal qual a felicidade.

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