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Opinião10/07/2020 | 16h01Atualizada em 10/07/2020 | 16h01

Nivaldo Pereira: duelos com o tempo

Um dia para uns, um ano para outros, vale a mesma regra: é preciso dar tempo ao tempo

Nivaldo Pereira: duelos com o tempo Charles Segat / Divulgação/Divulgação
Foto: Charles Segat / Divulgação / Divulgação
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Quem nunca teve uma ferida e tentou forçar a retirada da casca que protegia a cicatrização, até perceber, pelo sangue a jorrar, que devia ter esperado mais? Que falem joelhos e cotovelos ralados na infância. Que falem as feridas invisíveis na alma. Cedo aprendemos sobre a tessitura curativa do tempo. Um dia para uns, um ano para outros, vale a mesma regra: é preciso dar tempo ao tempo. Para além do efeito lenitivo, também aprendemos cedo sobre o necessário estado de madurez das coisas: o auge da fruta, a forma plena, a gestação completa. Tudo em seu tempo, dizemos, no elogio da cuidadosa espera pela excelência da manifestação. Agora o espanto: se não há quem não saiba disso na prática, por que diabos vivemos em duelo com o tempo?

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Neste ano de pandemia, revela-se nossa enorme insensatez em relação ao tempo. Entre mil quereres aflorados na sucessão dos meses de isolamento, uma pergunta não cala: quanto tempo mais? Já chega, caramba! Mas será que sabemos a extensão da ferida que o tempo nos obriga agora a curar? Miticamente, o tempo é uma dimensão de Saturno, também chamado de Cronos, senhor dos relógios e da foice em punho. Plasmado no planeta de anéis em volta, o pesado Saturno astrológico não gosta de pressa. Em movimento retrógrado, voltou ao signo de Capricórnio, seu domínio material, até findar de vez esse ciclo, em dezembro. Opa!, dezembro seria a resposta que esperamos para a urgente questão do tempo? Ora, em se tratando de Saturno, talvez seja melhor rever a pergunta.

Saturno reina nos limiares – é o último planeta visível a olho nu. Ele tanto rege a finitude do que já não se sustenta quanto as crises para o emergir do novo. Seus ciclos parecem nos prender no tempo ou nos imobilizar. No atual trânsito por seu próprio signo, acompanhado de Júpiter e Plutão como pelotão de choque, soa natural estarmos todos trancados em seus anéis gelados. Distâncias mantidas, fomos jogados para dentro. É cada um de nós a questionar a pirâmide das próprias necessidades. É o mundo obrigado a repensar seus modelos de produção e suas formas de governo. É a própria Terra em sinal de alerta pela vida. A grande conjunção planetária potencializa o tom de transformação profunda em tudo. Insanidade é tentar apressar esse curso.

Desde a antiguidade, o planeta do tempo não goza de boa fama. Ele representa a realidade, a cujas leis nem sempre queremos obedecer. Humanos são naturalmente movidos a desejos e paixões, a muita audácia e arrogância, daí o enorme sofrimento quando o real diz não aos nossos anseios e movimentos. Nessas horas, vale o consolo de saber que, muitas vezes, é sob alguma dificuldade que vislumbramos caminhos até então insuspeitados. Ninguém aqui é masoquista para louvar dores e tormentos, mas, gostemos ou não, a estratégia saturnina funciona assim: a descoberta pela falta. Saturno é a “educação pela pedra”, como escreveu o capricorniano poeta João Cabral.

Sob a foice do mítico deus agrícola, a pergunta certa não é “quanto tempo isso ainda vai durar?”, mas “o que precisamos aprender e transformar a partir disso?”. Pelas leis realistas do grande ceifador, cada um colhe o que planta. Assim, a recompensa é certa para quem faz seu trabalho dedicado em respeito às circunstâncias. E certa também é a queda dos que, semeando destruição, negam a realidade na promessa ilusória de uma feliz colheita. Na real: que estrutura se mantém no tempo sobre uma base de mentiras? E desde quando sementes de ódio fecundam paz?

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