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Opinião10/07/2020 | 07h00Atualizada em 10/07/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: sexo numa hora dessas?

Nesse período de contenção erótica, para usar um termo mais elegante, raros se aventuram em encontros com desconhecidos

Os filmes que estão tendo considerável aumento de acessos nos serviços de streaming são os chamados “pornô-soft”. Trocando em miúdos: apresentam cenas de sexo sem serem explícitas. Compreensível. Nesse período de contenção erótica, para usar um termo mais elegante, raros se aventuram em encontros com desconhecidos. Os sites de relacionamento continuam em alta – mas os famosos “match” (quando duas pessoas sinalizam o interesse recíproco em se aproximar) transformaram-se. Hoje eles se apresentam como a possibilidade de entabular longas conversas. Só isso. O que não é pouco, se considerarmos o distanciamento imposto. De onde se conclui que a necessidade de comedimento reduziu drasticamente a liberdade de muita gente. No cômputo geral, quem lucra são os casados. Mas precisam fazer parte da estatística dos que ainda mantêm desejo candente. Parece que o percentual é baixo – só ganha ênfase nas pesquisas. Enfim, cada um está se virando como pode. O tema parece periférico, mas adquire relevância na medida em que inúmeras conquistas deixaram de ser colocadas em prática na atual conjuntura. Sem contar a desestabilização emocional que acarreta para os que tinham uma vida trepidante e variada neste quesito.

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Claro, a gente se acostuma. Na impossibilidade de praticar, o jeito é mudar de assunto, aprender algumas receitas novas, ver séries em sequência - tudo depende da criatividade de cada um. Porém, é uma queixa recorrente nos consultórios psicológicos o baque que provocou. Afinal, somos animais movidos à satisfação dos instintos e viver castamente é o sonho de poucas pessoas. Pense no que deve se passar pela cabeça de um adolescente, em plena explosão hormonal. É como prender um tigre numa jaula de dois metros quadrados. Vai contra os mais elementares princípios da natureza. Temos à disposição alguns simulacros, entre eles o dos contatos feitos por vídeo. É um consolo, mas bem pobrezinho. O impulso dominante é o de tocar e ser tocado, sentir o cheiro, olhar, entregar-se. Manda o bom senso que o que não tem remédio, remediado está. Eu sempre vibro quando alguém me diz: estou saindo com fulano; fomos para a cama e está sendo maravilhoso. Para se chegar a esse grau de partilha com amigos e familiares, precisou-se de décadas. Que vantagem há no processo de repressão do corpo alheio? Quando mais felizes formos, melhor para todo mundo.

Temo que se instaure uma nova onda moralista, já o disse. Mas aposto também na capacidade de se manter o que já foi desvelado. A intimidade física é tão boa quanto a amorosa. Só os chatos e os frustrados se preocupam em vasculhar a alcova alheia. Os outros praticam, não têm tempo para teorizar. Tomara que logo, logo possamos abrir mais do que uma fresta para espiar. Mas o ideal é ser protagonista. Alguém discorda?

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