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Opinião09/07/2020 | 07h00Atualizada em 09/07/2020 | 08h18

André Costantin: alma cachorra

Quando Fiona partiu, indo habitar para sempre a aura de um antigo pinheiro, a oeste da casa, ficou órfão o meu coração de cão - hoje apenas alugado aos três cães da casa

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Nasci para viver com cães. “Eu sou feito assim” – frase dita à câmera por um dos meus personagens mais fortes, Armindo Zen, de saudosa memória, marco humano da Linha Capitel 21 Alto, Antônio Prado. Virginiano, fascinado pela Terra, como também sou feito.

Nesta semana, ofereceram-me um filhote: uma pastora alsaciana – a capa negra no dorso, os justos campos caramelos no peito e nas patas; orelhas já endereçadas para cima. E aquele olhar... O coração amolece; há mil metros quadrados no terreno de casa e ainda mais espaço imaginário; muito afã de amor canino nas meninas, Clarice e Aurora. Mas algo acontece aqui dentro do peito. Declino da oferta. Sinto-me incapaz.

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Na infância vivida na Vila Kaiser, mesmo com toda a liberdade da rua, mal pude conviver com um vira-lata, apelidado de Caixinho. Pelo curto, marrom. Era pouco afetuoso e meio ladino. Depois de um tempo – não pude entender porquê –, o cão foi levado para uma família de gente conhecida da colônia, onde, segundo a mãe, viveria solto e melhor.

Ficou na retina a imagem do cão correndo uma centena de metros atrás da VW Variant branca, na despedida – o pai, ao volante, disfarçando sua indecisão pelo retrovisor. A vida seguiu, entre tantos outros bichos. Mas o cachorro permanecia uma proibição em casa. Hoje, visitando o passado, penso que tal interdição fosse, talvez, a disputa surda entre pai e mãe, ambos escorpianos-raiz.

No tempo em que fiz minha primeira casa, na Linha 40, ainda antes de subir as paredes e o telhado, eu já andava com Fiona, uma pastora alemã. Com Ela vivi minha plenitude canina. Vieram outras casas passageiras, nas curvas da vida; a pastora, sempre comigo. Até vir para cá, na casa de Monte Bérico.

Quando Fiona partiu, indo habitar para sempre a aura de um antigo pinheiro, a oeste da casa, ficou órfão o meu coração de cão – hoje apenas alugado aos três cães da casa. Em ordem de chegada, vindos das ruas: a Lola, o Pipoca, o Quixo. Um dia escreverei sobre eles, fazendo-lhes um pouco de justiça ao comentário que encerrou a crônica da semana passada.

Cada qual me quer, a seu jeito. Nos olhamos; brincamos, discutimos, tocamos nossas vidas-cãs. Apenas isso. Escavo, porém não encontro espaço emocional para uma nova pastora, um cão grande, que saberá o que sou no fundo dos meus olhos. Tempo obscuro. Tempo de ser o gato que vi pelo vidro do carro, noite dessas, andando no aguaceiro do viaduto Campo dos Bugres: atravessou, parou, calculou, olhou em volta, mergulhou nas trevas do bueiro.

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