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Opinião28/07/2020 | 07h00Atualizada em 28/07/2020 | 07h00

Adriana Antunes: minhas amigas com mais de 70 

Compreender que o tempo passa e com ele mudamos, é fundamental para não nos iludirmos

Domingo se comemorou o dia dos avós e eu não tenho mais nenhum avô e avó vivos. Coisa mais estranha isso. Um pouco por perceber a vida e sua finitude, um outro tanto por perceber o próprio envelhecer. Algo como quando nos demos conta de que a vida anda, gira, passa. Uma das marcas do processo do envelhecimento são as mudanças corporais. Assim, pensar a velhice tem a ver com pensar o corpo. Esse velho corpo que nos acompanha ao longo da jornada. Dias atrás, em função da quarentena, tirei várias roupas do armário e encontrei uma camisola que era da minha nona. Uma camisola que ela havia me dado ainda no tempo que eu era criança. Lembro que havia ido visita-la na colônia e havia me apaixonado por aquele vestidinho de dormir, puído e com algumas rendas. Ela não hesitou e me deu a pequena vestimenta. Vesti a peça, quase 40 anos depois do acontecido e eis que levei um susto diante do espelho: havia me transformado nela, na minha avó, com a mesma idade que tenho hoje. Fiz uma foto para registrar o fato e poder observar com mais calma depois. Racionalizei lembrando que Mario Quintana, João Cabral, Drummond e outros tantos poetas já colocaram em verso a mesma surpresa, então pensei que não era algo totalmente incomum. No entanto, constatar isso no real, é outra história. Fiquei lembrando que minha nona já fora como eu um dia e por tanto, eu serei como ela. Lacan fala sobre a compreensão que temos da forma unitária do corpo vivenciada a partir do reflexo do espelho, principalmente na infância, mas fala também dessa imagem refletida no olhar do outro (que pode ser nós mesmos) cujos efeitos externos potencializam o sujeito na construção de uma imagem idealizada de si mesmo. O discurso presente do cotidiano do sujeito que envelhece constrói uma representação do corpo e dar-se conta das mudanças e compreender que o tempo passa e com ele mudamos, é fundamental para não nos iludirmos.

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Tempos atrás, uma aluna querida, chamada Jane, me disse que ela era o meu futuro. Sim, pensei, Jane tem toda razão, ela tem setenta e poucos anos e justamente por isso, está adiante no tempo. Eu sempre fui apaixonada por trabalhar com pessoas mais velhas. Toda vez que converso com alguém que chegou antes de mim no futuro, ouço com atenção e tento aprender algo importante. Nas quartas-feiras dou aula no UCS Sênior, para uma turma incrível, chamada Protagonismo Feminino. Há uma força dentro delas, uma poesia, um ensinamento, uma coragem, um desejo de vida, uma entrega, uma capacidade de amizade, uma sabedoria que me emocionam. Fico pensando o quanto a vida nos ensina o tempo todo. Não posso dizer que elas são como avós, pois têm a idade de minha mãe, mas são uma espécie muito especial de amigas, gente que chegou antes de mim no futuro e como minha nona, dão partes de si para que eu também vá experimentando vestir-me de tempo e afetos e perceber se preciso fazer diferente, porque ainda não cheguei lá e tenho tempo de mudar. Isso é generosidade.

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