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Opinião14/07/2020 | 07h00Atualizada em 14/07/2020 | 07h00

Adriana Antunes: eu, canceriana

Hoje, dia 14, dia da tomada da Bastilha, faço 44. Nunca imaginei chegar nessa idade. Não fiz planos para isso

Tenho a impressão de que com o passar dos anos aprendemos a simplificar. Eis uma constatação de quem está envelhecendo. Passamos a encurtar as frases, não fazemos mais rodeios nas conversas, deixamos de lado os joguinhos de amor e facilitamos o entendimento. Aprendemos a mudar o rumo da prosa antes que possamos nos magoar em discussões, na maioria das vezes, inúteis. Não falamos mais de assuntos sérios pelo whats e descobrimos que talvez, mais eficiente que ter a razão, é permanecer em paz.

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Com o passar dos anos aprendemos a nos demorar mais nas pessoas que amamos, a ouvi-las sem pressa, a entender que a ordem da vida é de outra natureza. Aprendemos a ler poesia e não abandonar a leitura se o entendimento da elipse não se dá de pronto. Descobrimos que a comida fica mais gostosa não só porque plantamos nossos próprios temperos, mas porque há um alguém que compartilha a mesa, o cotidiano e a cama.

Com o passar dos anos aprendemos a evitar os adoecimentos do corpo e da alma. Descobrimos que fazer terapia é vida e que podemos dançar na cozinha enquanto se abre um vinho sem medo do julgamento. Aprendemos a ser mais seletivos nos amigos, afinal, amigo é que aquele sujeito que se empresta para você sem fazer questão de si. Enterramos os amores que, seja lá por qual motivo, falharam, mas sem peso no coração e sem saudades do que ficou para trás. Aprendemos que a vida é uma sucessão de ciclos, que um dia as dores se esvaziam e o sentimento se aprimora.

Com o passar dos anos decidimos usar as roupas que nos caem bem, estejam ou não na moda, a usar sapatos confortáveis e ter opiniões próprias, mas sem necessidade de propaga-las aos ventos. De repente descobrimos que cabemos dentro de nosso próprio corpo e que ele é a casa mais linda que alguém poderia ter.

Depois de muito tempo aprendemos a ter gratidão e que o amor diz respeito àquilo que Freud dizia, ser grato as primeiras pessoas de nossas vidas, as que nos acolheram, dentro da possibilidade delas, nos amaram do seu jeito e nos apresentaram ao mundo.

Com o passar dos anos perdemos o medo de contar a idade, aceitamos os cabelos brancos, as rugas e suas histórias. Aprendemos que lutar contra isso é desgastante, caro e jamais vai impedir a passagem do tempo.

Hoje, dia 14, dia da tomada da Bastilha, faço 44. Nunca imaginei chegar nessa idade. Não fiz planos para isso. O que aprendi com o passar dos anos é que a teoria e os conceitos não dão conta dos sentimentos e afetos. Definições são perfeitas, apenas, para escrever artigos científicos. Talvez com o passar dos anos a gente aprenda que ainda há muito para se aprender, que estamos todos juntos, apesar de separados, que é fundamental colocar-se no lugar do outro, silenciar quando tudo ao redor grita e arrumar um jeito de deixar a vida acontecer e continuar nos surpreendendo.

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