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Opinião12/06/2020 | 16h46Atualizada em 12/06/2020 | 16h46

Tríssia Ordovás Sartori: Quase pode ser tudo ou nada

Escolho a cor da máscara nas raras vezes que saio de casa, me acostumei a andar descalço e sem sutiã, me disciplino a acordar cedo e a me arrumar para ficar em casa, dando um ar de pretensa normalidade ao clichê do novo normal

Tríssia Ordovás Sartori: Quase pode ser tudo ou nada /
Fábio Panone Lopes, especial
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Já são quase 90 dias em casa, que quase trabalho o tempo todo e faço reuniões por vídeo e marco encontros por email e falo com amigos sem poder tocá-los e visito meus pais à distância. São quase 90 dias de quase isolamento total quase desenvolvendo a paciência de uma monja, quase surtando, quase sem vontade de fazer nada e quase tentada a começar mil novos projetos, de esculturas de papel machê a livros em parceria com amigos. 

Faz quase 90 dias que vejo mais o sol pela janela do que da rua, que vi a conta de luz triplicar, que conheci um monte de vizinhos num apagão, que me reaproximei de amigos de longa data, como se fosse possível fazer isso à distância. Faz quase 90 dias que alterno terapia online e presencial, compro flores na esquina para trazer um ar bucólico para a casa e tento driblar a preguiça para ir ao pilates com regularidade. 

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Faz quase 90 dias que escolho a cor da máscara nas raras vezes que saio, que me acostumei a andar descalço e sem sutiã, que me disciplino a acordar cedo e a me arrumar para ficar em casa, dando um ar de pretensa normalidade ao clichê do novo normal. 

Faz quase 90 dias que me percebo emocionada ao falar com alguém que gosto, que sinto vontade de abraçar todo mundo e quero traduzir delivery e drive thru cada vez que as vejo, porque são palavras que já existem em português e não faz sentido usá-las em inglês, nem que seja para treinar a pronúncia. Faz quase 90 dias e passei experimentar grupos de WhatsApp e Telegram com quase desconhecidos para compartilhar impressões e dicas de cinema e literatura, mesmo sem muita paciência para escrever ou assistir a filmes aleatórios. 

Faz quase 90 dias que me reaproximei de mim, passei a meditar, a me preocupar se tomei água o suficiente, a colocar gengibre no chá ou a tirar os calçados na porta do apartamento. Faz quase 90 dias que descobri uma capacidade enorme de resiliência, um talento para pequenos vídeos personalizados e a necessidade de afeto físico. Faz quase 90 dias que não preciso de mais nada, a não ser amor, empatia, internet e pimentões vermelhos na geladeira. 

Faz quase 90 dias que penso em viajar, mas mal saio da cidade, que quase esqueço como é bom entrar num avião e atravessar o Atlântico, embora eu nem goste de voar nem da rotina de não-lugar de aeroportos mundo afora. Faz quase 90 dias que me dou conta de que quase nada do que tenho é necessário, que é o essencial que faz falta, que é possível se adaptar a quase tudo e que problema, mesmo, é não ter saúde ou não gostar da própria companhia. Os outros desafios quase não têm importância depois que a gente aprende a relativizar o peso das coisas e percebe que o quase pode ser uma aproximação ao tudo ou ao nada. 

Ando quase estoica, mas não o suficiente para aceitar com tranquilidade o devir.

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