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Racismo#405/06/2020 | 15h20Atualizada em 05/06/2020 | 17h30

"Se você pudesse escolher, seria negro?", provoca a produtora cultural

Carla Vanez diz que o olhar de desprezo é tão agressivo e fere quanto uma palava mal proferida

"Se você pudesse escolher, seria negro?", provoca a produtora cultural Antonio Valiente/Agencia RBS
Carla Vanez diz que o preconceito está enraizado na mentalidade do brasileiro Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Pense no seguinte exercício mental. Feche os olhos, imagine-se em uma praia, em um lindo entardecer. À sua direita, procure enxergar uma multidão correndo em sua direção. Logo à frente desse grupo, um rapaz corre, desesperado, com uma sacola na mão. Se você estiver enxergando um rapaz negro, é porque o preconceito está enraizado no seu coração. É por meio dessa ilustração que a produtora cultura, atriz e bailarina, Carla Vanez, 40, explica como o racismo está no DNA da sociedade.

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Quando criança, não havia referência para Carla espelhar-se. A estrela da televisão dos programas infantis era a Xuxa, alta, loira, olhos claros. As Paquitas, ajudantes de cena da Xuxa, por sua vez, eram todas do mesmo shape da apresentadora. Por mais que recebesse o reforço da sua mãe, de que havia beleza em si, não era o que ela via através do espelho. Porque Carla era desprezada na escola onde estudava. Por conta de uma bolsa, conseguiu estudar em escola particular, mas foram os dois anos mais difícil da pré-adolescente, pois sofreu, em silêncio, com vergonha até de se abrir com a mãe sobre o bullying.

Para além das palavras de desprezo, havia sempre aquele olhar do outro que feria. Carla cresceu, amadureceu, encontrou uma via de reconhecimento da sua identidade, ancestralidade e religiosidade. Essa imersão lhe fortaleceu e empoderou, mas não serviu para blindar o racismo que a filha também sofreu, desde a infância.

—  Eu lembro de uma noite de cantata de Natal, no centro, em Caxias. Naquele ano resolveram inovar e colocar teatro junto para contracenar com os cantores. Um pouco antes de começar, a minha filha foi distribuir mensagens que haviam sido escritas para que as pessoas levassem para casa. Ela estava com um cesto e uma fantasia e foi até as pessoas. Mas acredita que as pessoas olhavam para ela e, antes dela oferecer a mensagem, diziam: "não quero comprar nada", ou ainda "sai daqui"— relata.

Enquanto descreve a cena, Carla deixa escapar, através do olhar, a indignação e a tristeza daquele dia.

— A forma como as pessoas olhavam para ela era com desprezo, parece que elas pensavam que ela iria assaltar eles, ou pedi alguma coisa. Mas ela só estava querendo entregar uma mensagem. Eu tenho certeza absoluta que se fosse uma menina loira, não tratariam ela da forma como trataram a minha filha — critica.

Quando questionada como é que se pode enfim mudar esse olhar de preconceito racial, Carla, inspira, suspira, desvia o olhar, e arrisca dizer, em tom sereno:

— Para mudar  o olhar é preciso um entendimento da sociedade, em abrir mão dos pré-julgamentos e tentar entender o outro. Só o fato de algumas pessoas, que não são negros, me procurarem para trocar ideia e tirar dúvidas porque querem entender um pouco mais sobre o assunto, é ótimo. É muito importante que todos possam se posicionar, mesmo quem não é negro.

Aos que criticam esse posicionamento como sendo "mimimi", Carla responde, com outra pergunta:

 —  Se você pudesse escolher, seria negro?

AGENDE-SE
O quê
: Sarau Fica em Casa, com Ágatha Cristina, Cabral, Mestre Fabinho da Nação de Maracatu Estrela Brilhante de Recife, Lucas Caregnato, Manoel Luthiery e Marcelo Amaro.
Quando: sábado (6), às 19h.
Onde: Instagram @carlavanez.

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