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Opinião01/06/2020 | 11h35Atualizada em 01/06/2020 | 11h35

Sandra Cecília Peradelles: pra gente viver mais

Não posso falar de como as outras pessoas amam, posso até supor, mas em verdade nunca saberei

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

Meus olhos ainda brilham ao lembrar que, aos 12 anos, vi no menino franzino de sorriso de imensidão, que morava bem ali, cinco ou seis casas abaixo da minha, a primeira possibilidade de me apaixonar. Eu segurei aquele sentimento o quanto pude, dada à vida árida que me fazia crer que aquilo não era real e, também, à minha personalidade controladora. Tudo por não conseguir, no auge da minha inexperiência, decifrar aquele sentimento ou o que, no futuro, ele poderia me trazer. Com toda minha infante racionalidade, mal pude perceber que já era tarde demais, ali se concretizava meu primeiro amor. 

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Lembro-me do desconcerto ao estar na presença da pessoa que me despertou amor fora do seio familiar. Era angustiantemente delicioso, e horrível, e assustador. Contudo, maravilhoso. Lembro-me do coração acelerado, da boca seca, da vontade de sei lá o quê. Lembro-me de querer sentir aquilo tudo pra sempre e nunca mais. Lembro-me, principalmente, de como eram as noites pré sono de uma menina apaixonada na puberdade, quando àquela criatura, dona do meu afeto, tomava lugar em minha mente, se assentava sobre cada pensamento meu, tirando o sossego ao mesmo tempo que me entregava a paz dos anjos. 

Já são idos esses dias, mais de 20 anos se vão, muitas paixões a sucederam. Umas, como essa, que se passaram somente na realidade configurada dentro da minha cabeça, outras reais, cheias de trocas, aprendizados e vivências. Todas elas, sem dúvidas, foram uma batida de martelo no aço incandescente da espada afiada que sou hoje.

Daquele menino não tenho notícias há tempos, mas a ele sou muito grata, sempre serei. Foi com ele que tive a honra de enxergar de maneira amorosa o outro, perceber minha sexualidade e, mesmo que platonicamente, aprender a amar. 

Essas lições trago ainda, cá, dentro da bagagem de mão da vida. E, são elas e cada lembrança de como eu me senti amando alguém que me fazem crer que todo sentimento é bom, até os ruins. Só sente com profundidade quem é humano, eu sou. 

Não posso falar de como as outras pessoas amam, posso até supor, mas em verdade nunca saberei. Sei de mim, da minha experiência, de cada pessoa que passou pela minha vida, do que consegui aprender com as alegrias e desventuras do que é se entregar. Enxergo agora que é menor a importância da diferença que você fez na vida de alguém, mais vale é quem nos tornamos a partir do que vivemos ali. 

Olhando assim, me encorajo a querer viver mais. Por que a meta é sempre viver mais e melhor. E, se for pra ser longa a vida, que seja ela cheia de amores honestos, beijos abrasadores e esperanças de que o amanhã existe pra gente reviver e renascer.

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