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Opinião08/06/2020 | 07h01Atualizada em 08/06/2020 | 07h01

Sandra Cecília Peradelles: as asas do anjo Miguel

Desde essa noite, eu que mal sei rezar, direciono minhas preces ao Anjo Miguel do Brasil, pedindo a ele uma humanidade mais humana

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

Noite dessas, dessa semana que se vai, comumente eu fazia Pilar dormir. Enquanto amamentava minha filha, cantarolava alguma velha canção da MPB e enroscava meus dedos em seus cabelos repleto de cachos. Ali, pude sentir o calor do seu corpinho pequeno e fiquei especialmente feliz por sentir a respiração dela. No dia anterior, soube pela mídia da morte de um garoto, pouco mais velho que ela.

O garoto se chamava Miguel e fora acompanhar a mãe, trabalhadora doméstica, na lida diária. Enquanto a mãe levava o cachorro da casa para passear, deixou o filho aos cuidados da patroa, que fazia as unhas. Por algum motivo, a empregadora não quis aguardar o retorno da empregada e despachou o menino – irresponsavelmente – de elevador para encontrar a mãe. Perdido, Miguel desceu no 9º andar do prédio e de lá caiu.

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Desde que soube disso eu andava sem lugar. A casa não me cabia, e, no meu peito, o coração também não. Estava amuada, sem fé. Vendo na humanidade suas mazelas escancaradas. 

Ali, eu no colo da minha filha. Agradecendo aos céus por ela estar viva, saudável e feliz, lamentando dolorosamente que outra mãe perdeu sua cria por nada, além da ganância e vaidade alheia. Todos nós podemos imaginar o que é para uma mãe perder um filho, mas nenhum de nós pode mensurar uma dor assim. Ficava me perguntando: como uma pessoa que é mãe (no caso, a patroa) supõe que, com cinco anos, uma criança tem capacidade para descer um elevador de um gigantesco prédio sozinha? 

Acontece que, tenho certeza, ela não acredita nisso, porque certamente jamais permitiria que seus filhos saíssem sem companhia nessa idade. A patroa só não se importava, não era filho dela. Era um garoto preto de periferia: devia saber se virar sozinho. Pensou, imagino. Pensamento leviano, desonesto e cruel esse. Infelizmente não é incomum. Crianças são crianças, independentemente da classe social e cor. O que muda é que enquanto as brancas de classe média e alta são respeitadas em sua essência infantil, as pretas e pobres são desumanizadas desde o ventre de suas mães. 

Isso tudo eu pensava enquanto minha filha ia, vagarosamente, encontrando o sono. Não mais que de repente, tomou conta de mim uma angústia, um medo. A tristeza foi ganhando espaço, beijei com força a cabeça da pequena. Meu braços a apertava contra meu peito como se, naquele momento, eu a pudesse proteger pela vida inteira.

Me veio à mente que Mirtes, mãe de Miguel, com certeza tivera muitos momentos assim com ele e a última vez que o teve em seus braços, sua cria estava sem vida. O nó da garganta e a dor no peito se converteram em lágrimas indiscriminadas, um choro sem freio. Chorei por não poder mudar o mundo, por não poder trazer de volta um anjo à vida. 

Chorei tanto, acabei adormecendo. No sono, um sonho rápido. Eu caía junto a Miguel do 9º andar das tristes torres gêmeas do Recife, a gente se olhava e ele não estava com medo, até sorria, quando o chão se aproximava, gritei: Voa! Em suas costas, asas enormes arrebentaram o tecido da camiseta, e ele voou, subindo à infinidade do firmamento, batendo suas asas angelicais, virando luz lá em cima. 

Acordei. Desde essa noite, eu que mal sei rezar, direciono minhas preces ao Anjo Miguel do Brasil, pedindo a ele uma humanidade mais humana, amém. 

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