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Racismo#205/06/2020 | 15h45Atualizada em 05/06/2020 | 16h19

"Quando o policial coloca o joelho no pescoço do Floyd, expõe a lógica da desumanidade", diz professor caxiense

Historiador Lucas Caregnato, é autor do livro "A outra face: a presença de afrodescendentes em Caixas do Sul -1900 a 1950"

"Quando o policial coloca o joelho no pescoço do Floyd, expõe a lógica da desumanidade", diz professor caxiense Antonio Valiente/Agencia RBS
"O policial esboçou o maior nível de sadismo e racismo, que é matar a existência da pessoa com crueldade, vilania e desumanidade", argumenta Lucas Caregnato Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Há uma lógica pairando nas redes sociais, desde que iniciaram os protestos em diversas cidades dos Estados Unidos, como reação à morte de George Floyd. São rótulos da pós-modernidade que apenas entulham as vias do diálogo, como a negação de que existe racismo. Ou ainda, de que é comunista todo aquele que se diz antirracista. Os defensores de que o racismo não existe, dizem que no fundo essa reclamação é "mimimi", expressão facebookiana que denota um discurso mimado do emissor.

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O historiador e professor Lucas Caregnato, 35 anos, é autor de A outra face: a presença de afrodescendentes em Caixas do Sul -1900 a 1950. Caregnato diz ter munição suficiente na sua metralhadora ativista para meses de debate. De forma sintética, mas sem perder a contundência, ele explica que o racismo com tintas de sadismo, que se viu na morte de Loyd, também ocorre no Brasil. Caregnato diz que a morte do africano escravizado, seja no Brasil Colônia, ou nos dias de hoje, era sempre uma morte cruel que visava desumanizar o negro.

— Quando o policial coloca o joelho no pescoço do George Floyd, fazendo o cara ficar lá sofrendo, expõe a lógica da desumanidade. Não é só a morte física. Mas se trata da morte da existência dessa pessoa. O policial esboçou o maior nível de sadismo e racismo, que é matar a existência da pessoa com crueldade, vilania e desumanidade — argumenta o professor.

Caregnato acredita que o racismo no Brasil é institucionalizado, ou seja, já faz parte do DNA das instâncias de poder no país. O professor entende que houveram conquistas, como a acesso dos alunos negros, em universidades, através de cotas. No entanto, diz que é preciso avançar ainda mais.

— Há no Brasil, um racismo institucionalizado, chamado por muitos de "mimimi". Esse racismo, por exemplo, deixa o negro sem acesso ao Enem, quando o ministro da Educação (Abraham Weintraub) insistia em manter a data dos exames, não levando em conta que a maioria dos negros, estuda na rede pública e eles seriam os mais prejudicados.

Ou ainda, prossegue o professor, dizendo:

— A anemia falciforme, que acomete muito negros, é um dos fatores de risco que contribuem para as mortes por covid-19. A imprensa não fala sobre isso, e nem o governo tem ações para proteger os negros — questiona.

No site do Ministério da Saúde, há uma explicação do que é a anemia falciforme. Diz o texto: "é uma doença hereditária caracterizada pela alteração dos glóbulos vermelhos do sangue. Essa condição é mais comum em indivíduos da raça negra. No Brasil, representam cerca de 8% dos negros".

Mas como mudar a mentalidade racista se ela está enraizada? O professor defende ações de educação, conscientização, mas não acredita que só uma parte da sociedade deva se envolver.

— Acho que a mobilização dos negros, perpassa pela valorização e reconhecimento de sua identidade. Mas a responsabilidade da mudança de paradigma não é só do negro, que precisa ter orgulho da sua ancestralidade, mas de toda a sociedade. Em Caxias, os negros são apenas 14% da população, o restante é de pessoas brancas. Eu não acho que é um processo só da educação, perpassa a cultural, o judiciário, a polícia, enfim, é uma mudança do paradigma existencial da sociedade — defende.

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