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Opinião20/06/2020 | 08h13Atualizada em 20/06/2020 | 08h14

Pedro Guerra: perdemos a paciência

A duração de tudo foi encurtada, exatamente em um momento que nossa principal luta é prolongar os abraços e o tempo ao lado de quem amamos

Pedro Guerra: perdemos a paciência Antonio Giacomin / Divulgação/Divulgação
Foto: Antonio Giacomin / Divulgação / Divulgação

Não é novidade para ninguém que nos últimos anos o mundo vinha correndo uma maratona sem previsão de linha de chegada, em uma velocidade tão gritante que nem tinha medo de assustar. Mas assustava. Com a chegada do coronavírus, mesmo que ainda seja difícil, podemos perceber o quão acostumados nós estávamos (ainda estamos!) com a pressa de tudo que nos rodeia.

Existem diversas formas de enxergar que perdemos a paciência. De acordo com um levantamento realizado pelo núcleo de análise (M)Dados, as músicas produzidas no Brasil perderam 10 segundos de duração entre 2017 e 2019. Antes, uma faixa tinha, em média, três minutos e oito segundos. Em 2019, levando em conta as 30 músicas mais tocadas, a média caiu para dois minutos e 58 segundos.

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A pesquisa aponta o óbvio. Nós temos pressa porque vivemos em mundo onde basicamente tudo é descartável – salvo algumas relações interpessoais (e estamos tendo que combater um vírus mortal para relembrarmos o valor de ser um humano e conviver com um). Não existe mais paciência (e tempo) para apreciar uma música com seus quatro ou cinco minutos de duração, o que era totalmente comum nos anos 1970 e 1980 (você deve lembrar da versão para o álbum de sete minutos e dois segundos da clássica Total Eclipse of the Heart, editada para o rádio com 4m30s, basicamente duas músicas nos dias de hoje).

O encurtamento das coisas sempre foi e vai continuar sendo uma estratégia. Enquanto as novas formas de consumir música fazem com que o artista dependa do streaming (execução da mesma em uma plataforma online), o tempo é fator decisivo para o número de reproduções. Se você escutá-la duas vezes em um tempo que antigamente era a duração tradicional de uma única faixa, o artista ganha em dobro.

Outros setores seguem a mesma linha: a empresa sueca IKEA explodiu ao dominar boa fatia do mercado vendendo móveis domésticos de baixo custo. A proposta é oferecer ao consumidor uma tendência em alta nos últimos anos (o DIY – Do It Yourself, ou “Faça você mesmo”), tornando-o responsável pela montagem e instalação do produto. Assim, em um mundo estupidamente descartável, os móveis agora são trocados a cada dois ou três anos, já que o custo baixo permite – em paralelo, as tendências de design e moda tornam alguns estilos obsoletos rapidamente.

Estamos correndo, e não haveria problema algum nisso se nós ao menos soubéssemos onde queremos chegar. Perdemos a paciência para tudo, e se você quiser mais uma prova disso, ofereça um livro lançado em março para um adolescente e ele dirá que o mesmo já é assunto de anteontem, coisa velha. A duração de tudo foi encurtada, exatamente em um momento que nossa principal luta é prolongar os abraços e o tempo ao lado de quem amamos. Experimente enviar um áudio de três minutos no WhatsApp e observe as reclamações ou a demora na resposta.

Bons eram os tempos onde a gente ficava enrolando o fio do telefone e rabiscando um papel durante horas enquanto jogava conversa fora, ou, pelo menos, quando tínhamos tempo (e paciência) para escutar uma música de longos, intermináveis e ao mesmo tempo muito breves sete minutos.

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