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Racismo#305/06/2020 | 15h33Atualizada em 05/06/2020 | 16h17

"Há um genocídio no Brasil contra os jovens negros e só não vê quem não quer", diz educadora social

Juçara de Quadro teve o neto assassinado por causa de um desentendimento em uma partida de futebol

"Há um genocídio no Brasil contra os jovens negros e só não vê quem não quer", diz educadora social Antonio Valiente/Agencia RBS
"É uma sensação de impotência, sabe? É como se a mensagem que fica é a de que 'eu vou ser mais uma a morrer'", desabafa Juçara Foto: Antonio Valiente / Agencia RBS

A educadora social e estudante de Serviço Social, Juçara de Quadro, 60, faz questão de relatar pelo menos duas mortes de homens negros em Caxias do Sul. As imagens são recorrentes no seu pensamento e provocam, ainda hoje, frustração, impotência e tristeza. Por trás de cada vida ceifada, havia um nome, uma história abreviada e um sonho não realizado. A primeira morte dentre tantas que ela gostaria de trazer à luz da memória, é a do mestre de obras José Maria Martins, na época com 42 anos, na madrugada de 11 de novembro de 2000.

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Segundo o texto da reportagem do jornal Pioneiro (25 de outubro de 2010), por conta do julgamento de dois brigadianos e um ex-PM, acusados de matar José Maria, os jornalistas Daniel Corrêa e Guilherme Pulita, assim relataram:

"Zé Maria, como era conhecido o mestre de obras, preparava-se para entrar em sua Quantum ano 1997, estacionada no Centro, quando um motorista imaginou que ele estivesse tentando furtar o veículo. O homem informou a suspeita a um PM. A informação chegou ao conhecimento da central da Brigada Militar (BM), e Zé Maria, um dos líderes da comunidade do bairro Fátima, começou a ser perseguido pelas ruas. (…) Os policiais disseram que trocaram tiros com Zé Maria. O mestre de obras morreu com dois tiros — na axila esquerda e nas costas —, quando estava a poucos metros de casa".

— O carro dele ficou todo crivado de balas. Viram um negro, malvestido, entrando em uma Quantum e pensaram que ele estivesse roubando o carro. Só que ele vestia roupas de trabalho, sujas, porque trabalhava como pedreiro, queriam que ele estivesse vestindo o que? O preconceito já partiu de quem ligou para a polícia, que deve ter pensando: "esse negro deve ter roubado esse carro" — recorda Juçara.

A estatística da violência é perversa, sobretudo quando o racismo é vetor do crime. No dia 7 de fevereiro de 2015, uma partida de futebol terminou com a morte do neto de Juçara, o jovem de 20 anos, Aldair Inácio da Silva. Conforme relato do jornal Pioneiro à época, "De acordo com amigos que presenciaram os disparos, os tiros teriam sido efetuados pelo pai de um jogador do time adversário após um desentendimento durante a partida. O crime ocorreu por volta das 20h30min na Rua Ludovico Cavinatto, bairro Santa Catarina".

— Infelizmente, nessa noite eu acabei entrando para as estatísticas da violência conta jovens negros. Porque há um genocídio do Brasil contra os jovens negros, e só não vê quem não quer. É uma sensação de impotência, sabe? É como se a mensagem que fica é a de que "eu vou ser mais uma a morrer" — diz, inconformada.

Juçara também reconhece que há um racismo institucionalizado no Brasil, assim como acusa o professor Lucas Caregnato. Para provar seu ponto de vista, Juçara recorda de uma palestra que viu, certa vez, na Brigada Militar, em Porto Alegre.

— O policial que estava dando o curso e escreveu um esquema, no quadro, com as palavras: "nascimento, igreja, educação e morte". Ele dizia: "Negrinho nasce, a igreja tenta mudar ele, mas não consegue, daí o moreninho vai pra escola e também não dá. O que resta é matar". Ele disse exatamente assim, fazendo até um desenho para explicar — conta.

Atualmente, Juçara integra o Movimento Negro Unificado, em nível nacional, onde ocorrem debates de políticas públicas. No entanto, ela critica a posição do atual governo, visto que a Fundação Zumbi dos Palmares, está sob a presidência de Sérgio Camargo, que diz, entre tantas outras coisas, que o movimento negro de uma "escória maldita".

 — Eu não sei o que vai acontecer, mas vamos continuar a morrer de forma violenta, porque as vidas negras não importam. É como diz aquela letra da música da Elza Soares: "A carne mais barata do mercado é a carne negra" — dispara Juçara.

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