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Opinião10/06/2020 | 07h00Atualizada em 10/06/2020 | 08h37

Ciro Fabres: pois é...

Nada será como antes, entusiasmam-se alguns

Os tempos são difíceis. Muito difíceis. Claro, pelo coronavírus. Milhares de mortos. No Brasil, está se revelando uma tragédia humanitária, que tem nos poupado aqui em nossa realidade microrregional com números moderados, porém as vidas perdidas existem.

Mas não só pela covid-19. Nesse período de pandemia, colecionamos três casos que evidenciam o estágio primitivo de nossa estrutura, organização e hierarquização segregadora e racista da sociedade. Se nem todos são racistas, a sociedade é, a humanidade é, em seu conjunto e organização.

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Os três casos: 1) O menino João Pedro.  Aos 14 anos, esse adolescente negro foi atingido mortalmente no dia 18 de maio quando a casa em que estava a cumprir quarentena, na comunidade do Salgueiro, em São Gonçalo, no Rio, foi alvejada por 70 tiros de fuzis disparados por policiais. Mais um episódio trágico da conturbada e mal esclarecida relação das forças policiais com negros e comunidades pobres. 2) O negro George Floyd. Sua morte no dia 25 de maio, decorrente de asfixia e estrangulamento imposto por um policial branco durante quase nove minutos em Mineápolis, nos Estados Unidos, gerou revolta em todo o mundo. Outra relação bárbara e cruelmente encaminhada entre policiais brancos, que representam a sociedade, e a comunidade negra. 3) O menino Miguel. Aos 5 anos, morreu no dia 2 de junho depois de cair do 9º andar de um condomínio de luxo no Recife. Foi encontrado no chão pela mãe, empregada doméstica negra, que havia levado o filho para o apartamento onde trabalhava, mas saiu por minutos. Uma fatalidade “nem tanto”, que teve origem na falta de paciência da patroa ao abandonar o menino de 5 anos sozinho no elevador.

Aqui em Caxias, nos dias 24 e 25 de maio e 4 de junho, houve três duplos homicídios no bairro Euzébio Beltrão de Queiroz. Três vezes dois igual a seis. Seis vidas perdidas, seja qual tenha sido a trajetória de cada uma delas. Não podemos nos conformar com esse destino. 

Perdas assim em plena pandemia. Outras perdas. Então, quando se diz de forma afoita que “nada será como antes” por conta da reorganização operacional, tecnológica e sanitária que a covid-19 está impondo, é “bem menos”. Esse “novo” é só a casca da formalidade e dos procedimentos, com algum ganho de valor agregado para a existência, que passará a ser incorporado ao dia-a-dia, o que é importante. Mas nem de longe fustiga e instiga a revisarmos posturas diante daquilo que realmente importa, a vida. Naquilo que há de preconceituoso, de desrespeitoso, de depreciação e não valorização do outro, emergiremos do outro lado da pandemia e o mundo prosseguirá como tem sido.

Nada será como antes, entusiasmam-se alguns.

Pois é... Tempos muito difíceis.

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