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Opinião03/06/2020 | 07h00Atualizada em 03/06/2020 | 07h00

Ciro Fabres: o primeiro gol da copa

Há exatos 50 anos, em 3 de junho de 1970, testemunhava meu primeiro gol de Copa

A data de hoje está retida na memória, data inaugural de muita coisa que viria depois. Há exatos 50 anos, em 3 de junho de 1970, testemunhava meu primeiro gol de Copa. Não me passaria pela cabeça naquele momento cogitar sobre onde haveria de estar 50 anos depois. As Copas do Mundo, desde então, se transformaram em marco temporal que pontilha a trajetória de nossas vidas. Na Copa de 82, por exemplo, estava na faculdade de Engenharia. Na de 86, na faculdade de Jornalismo, e assim vamos. Pois naquele 3 de junho, ao anoitecer, assisti ao gol de Petras, jogador da então Tchecoslováquia, hoje desmembrada em dois países: Eslováquia e República Tcheca. Era o primeiro jogo do Brasil na Copa de 70, no México, a primeira efetivamente transmitida ao vivo e com algum grau de popularização pela tevê. O Brasil ganharia aquele jogo por 4 a 1, depois venceria todas as demais partidas e se tornaria campeão. Mas aquele gol de Petras impressionou vivamente o menino de 9 anos. O tcheco, logo depois de marcar, ajoelhou-se e fez o sinal da cruz, e essa imagem permanece até hoje retida na memória.

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Desde aquele tempo, a tecnologia decolou rumo ao infinito, mas não a condição humana em direção a um mundo mais fraterno. Ontem, por exemplo, fui rever o gol de Petras por obra do YouTube. Para mim, pelas razões expostas, é um gol memorável. Era um menino, quase abrindo as portas da pré-adolescência, e é aí que queria chegar. Havia uma existência pela frente, escolhas a fazer, uma trajetória a percorrer, sonhos que foram surgindo ao seu tempo, como deve ser. Alguns persistem teimosos, cada vez menos expostos e mais guardados, pois assim se manifestaram em mim os efeitos do tempo e os desencantos do caminho. Havia uma crença que estava por florescer, na existência e na humanidade. Até desembocar agora, 50 anos depois, e constatar onde chegamos: um policial americano a forçar com o joelho por agonizantes nove minutos o pescoço do negro americano George Floyd. Convergem e se sintetizam nesse ato bárbaro praticado pelo policial, um representante fardado da humanidade, a necessidade de impingir sofrimento no outro, a sensação de supremacia, pela condição de subjugar o outro, o ambiente onde tudo isso prospera, que admite e tolera a segregação e, no caso, a discriminação racial.

É certo que na outra ponta, lá nos dias da Copa do gol de Petras, havia ditaduras, guerras, torturas e extermínios. “Pra frente, Brasil!” Mas testemunhar o suplício de George Floyd significa que não conseguimos melhorar o mundo, apesar dos esforços. Mais um desencanto pra coleção, uma retumbante frustração. 

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