Cem dias sem trabalho: para quem tem a arte como fonte exclusiva de renda, pandemia é desafio de sobrevivência - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Covid-1927/06/2020 | 07h40Atualizada em 27/06/2020 | 13h17

Cem dias sem trabalho: para quem tem a arte como fonte exclusiva de renda, pandemia é desafio de sobrevivência

Com contratos perdidos e apresentações canceladas, artistas reclamam da falta de urgência do poder público para ajudar

Cem dias sem trabalho: para quem tem a arte como fonte exclusiva de renda, pandemia é desafio de sobrevivência Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Ator e palhaço Janio Nunes teve todos os projetos suspensos ou adiados para o fim do ano. Sem renda, cogita voltar para a metalurgia Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Ninguém que escolhe viver da arte imagina que será fácil. Mas quem poderia prever dias tão difíceis quanto os que se vive desde meados de março, quando o vírus fez silenciar palcos, fechar galerias e suspender projetos culturais previstos para todo o semestre, que se encerra sem perspectiva de retomada? Para quem não dispõe de outra fonte de renda, são 100 dias convivendo com a angústia e o desespero, sem poder sequer dar-se o luxo de desanimar.

Para muitos artistas, março é o mês em que o ano começa de fato, conforme a vida nas cidades retoma o ritmo após as férias de verão. Devido à pandemia, porém, foi como se 2020 sequer tivesse começado para o ator caxiense Janio Nunes, 34 anos, que, literalmente de um dia para o outro, viu todos os seus trabalhos agendados serem cancelados ou adiados.

- Desde 7 de março não tem mais trabalho na minha área: espetáculos de teatro, eventos de palhaço, produção audiovisual. De março a junho tinha pelo menos 15 apresentações agendadas e que deixaram de ocorrer, fora o que apareceria durante esse período. Não entrou nem um centavo. Consegui fazer um caixinha no ano passado, mas a maioria dos artistas nem ganha o suficiente pra guardar de um mês para o outro. 

Em quarentena, Janio faz algumas lives para manter contato com o público, mas nada que dê retorno financeiramente. Tem contado com o auxílio da família. Era o ano em que imaginava sair da casa da mãe para morar junto com a namorada, mas esse projeto, assim como o trabalho, foi adiado. Ciente de que a situação irá demorar a normalizar, e acompanhando a demora do poder público em atender a classe com editais de emergência, acredita que terá de buscar sustento fora do ofício ao qual se dedica há 15 anos. 

– Sem auxílio do poder público, vai ficar inviável viver de arte. Por isso a gente cobra urgência, porque mais de três meses já se passaram e ainda estamos esperando os recursos que nos permitam trabalhar. Já cogito ter de buscar outra profissão. Trabalhei como operador de empilhadeira, soldador, mecânico de manutenção...tenho esses conhecimentos. Mas é muito triste, porque, quando isso tudo passar, as pessoas vão sentir falta dos artistas. Sendo realista, sabemos que, depois da pandemia, virá a grande depressão econômica. Mais gente vai ficar doente, depressiva. O que vai alegrar a vida das pessoas se não a arte? Estamos aguardando por quem está de barriga cheia – lamenta.

Turnê cancelada, salários suspensos

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 10/06/2020 - Artistas e técnicos de espetáculos de diversão estão há cem dias sem poder exercer suas profissões por conta da pandemia de coronavírus. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)<!-- NICAID(14531462) -->
Tainã Calmon e os colegas Christian Patrick e Guilherme Amaral (dono da banda). Sem shows, saída foi vender kits de produtos de limpezaFoto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Março também seria intenso para a cantora Tainã Calmon, 31 anos. Voz à frente do conjunto Arrastão, a caxiense é acostumada a fazer de mais de 20 shows por mês. Pouco divulgados na mídia, os grupos de baile tem suas peculiaridades, sendo quase um mercado à parte: músicos como Tainã são contratados com salário fixo pelos donos das bandas, que têm ônibus próprio e percorrem todo o Estado animando bailes e festas populares. Mas se não há shows, não há salário. E quando toda a agenda foi cancelada, Tainã e seus colegas, incluindo o patrão, se viram diante de uma dificuldade sem precedentes.

- Fizemos um show em Jaguarão, dia 15 de março, e durante a viagem de volta todos os shows marcados começaram a cair. O chefe disse que não teria como manter os pagamentos, e desde então vem nos ajudando com cestas básicas. Ele também arrumou kits de produtos de limpeza para a gente vender, e é isso o que tenho feito – conta a cantora, que também passou a receber cestas básicas de fãs do seu trabalho.

Mãe de uma menina de cinco anos, Tainã conta com a ajuda da mãe como cuidadora enquanto está na estrada com a banda. Sem renda, já providencia a mudança para uma casa de aluguel mais barato. Sabe que o futuro será complicado, pois, mesmo quando os shows puderem voltar, os cachês tendem a ser menores, uma vez que os donos de casas de shows também contabilizam seus prejuízos. Mudar de área? É uma hipótese, ainda que igualmente difícil:

– Sou cantora desde os 15 anos. Que currículo eu tenho pra mostrar? Sei que tenho uma fala boa para trabalhar com vendas, com atendimento ao público, mas não tenho nem como provar isso. Não tenho vergonha de dizer que minha situação está difícil, porque não é minha culpa. Mas isso balança um pouco os sonhos da gente. Fico me perguntando se fiz a escolha certa, por ter batalhado tanto tempo e estar passando por isso agora. Mas sei que esse não é o momento para resolver nada, e sim de ser grata a todos que se dispõem a ajudar. 

Tainã Calmon também está organizando uma apresentação para transmitir ao vivo em seu perfil e sua página no Facebook, que tem mais de sete mil seguidores, e no seu canal no YouTube. Será no dia 29 de julho. Procura interessados em patrocinar a apresentação.

Comissão cobra agilidade da prefeitura

Sensibilizado com a situação de artistas como Jânio e Tainã, um grupo criou uma comissão voltada para a busca por soluções e para pressionar a prefeitura. Participam o músico Robison Boeira, o ator Davi Souza, o folclorista Ladir Brandalise, o escritor Sebastião Teixeira, a artista visual Eliane Maciel e a produtora cultural Carla Vanez. Junto à prefeitura, a Comissão pede que se destine ao fomento cultural parte de recursos provenientes do valor devolvido pela Câmara à prefeitura em 2020 (R$ 3,5 mi) e também do Programa Federativo de Enfrentamento ao coronavírus (R$ 66 mi).

– São muitos artistas e trabalhadores da cultura que passam por dificuldades, sendo que alguns estão dependendo de favor para ter o que comer. Diversas reuniões foram feitas para tratar dessa situação, envolvendo o prefeito, a secretária de Cultura, vereadores, e até agora nada efetivo foi oferecido. Tudo está em espera, em análise, sendo que o tempo está passando e, para quem está parado, tempo é dinheiro. O artista não quer nada de graça, quer alguma forma de poder mostrar sua arte e receber por isso – destaca Robison Boeira. 

Estima-se que 3,5 mil pessoas trabalhem na cadeia cultural em Caxias do Sul. Presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Caxias, Aline Zilli destaca que reuniões com diferentes segmentos da prefeitura tem sido realizadas quase diariamente. Embora elogie a abertura ao diálogo, considera que a prefeitura não se sensibiliza para a urgência da questão:

– Qualquer edital de emergência já nem é digno desse nome, considerando o tempo que passou. Estamos numa situação de sobrevida. Sabemos que há planos em andamento, como o lançamento de editais, mas o argumento é de que as secretarias, tanto de gestão quando de cultura, estão no aguardo da Procuradoria Geral do Município para aprovar a liberação dos recursos.

Além de aguardar o parecer da Secretaria de Gestão sobre a possibilidade de destinar 20% do valor devolvido pelos vereadores para abrir um edital de emergência para a realização de projetos culturais durante a pandemia como lives ou exposições virtuais, a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) abriu nesta semana cadastro para artistas e espaços que poderão se beneficiar da Lei Aldir Blanc, da qual Caxias do Sul receberá R$ 3,1 milhões. Mas também esse socorro, no entanto, já demora a vir. A lei foi aprovada  por unanimidade no Senado dia 4 de junho e desde então aguarda sanção do presidente Jair Bolsonaro.  

A SMC também deve lançar até o fim deste mês o edital do Financiarte, que neste ano tem investimento de R$ 105 mil. Contudo, além de ser um valor muito abaixo da média histórica e até mesmo dos últimos anos, o processo de seleção também costuma ser demorado. O Conselho pede também a liberação de recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura já captados junto a empresas no início do ano, mas que estão bloqueados pois a remuneração só deve ocorrer após a realização dos projetos. 

– É um dinheiro que está na conta dos projetos, mas que não pode ser utilizado. Pedimos uma nova regulamentação para que, devido à excepcionalidade, esses valores possam ser utilizados agora, com a devida prestação de conta. Também está na mesa da PGM – destaca Aline Zilli.

“Planejamento de um ano por água abaixo”

Produtora cultural caxiense Carla Vanez recorreu ao artesanato para ter alguam renda durante a pandemia, quea fez perder todos os contratos firmados para 2020.<!-- NICAID(14531731) -->
A produtora, atriz e dançarina Carla Vanez recorreu ao artesanato para salvar a rendaFoto: Ágatha Cristina / Divulgação

Mesmo pessoas cuja trajetória na arte soma décadas não são capazes de lembrar momento tão difícil quanto o atual. Faz parte da vida do artista independente ter uma reserva para tempos difíceis, o que não permite esbanjar nem mesmo quando a fase é boa. Carla Vanez, atriz, dançarina e produtora cultural há 20 anos, aproveitou um bom contrato que firmou para trabalhar no último Natal Luz, em Gramado, para adiantar alguns meses do aluguel do apartamento em que vive com a filha Agatha, de 19 anos, também artista, no Centro de Caxias. Era como se soubesse, no início do ano, a tormenta que estava por vir. 

– Tudo o que eu tinha fui cancelado. Projetos elaborados com seis meses de antecedência, como alguns eventos de páscoa, a turma de teatro que ministro aula na Escola Preparatória de Dança (da Secretaria Municipal de Cultura), eram valores que eu estava contando pra esse ano, mas que não vão vir. Outra renda importante era o Médicos do Sorriso, que por ser dentro de um hospital, vai demorar pra poder voltar. Todo artista sabe que vai ter de lidar com meses de baixa, mas essa situação me desestruturou financeiramente – desabafa.

Nos primeiros meses da pandemia, abril e maio, ainda estavam entrando pagamentos de alguns trabalhos dos primeiros meses do ano, que ajudaram a manter as contas em dia. Em junho, foi preciso contar com o adiantamento da remuneração de um projeto futuro. A primeira parcela do auxílio emergencial do governo federal, de R$ 600, só entrou na semana passada. Carla também voltou a fazer artesanato para vender e começou uma série de lives no Instagram (@carlavanez), o Sarau Fique Em Casa, em que recebe artistas para conversar e ao final uma obra de arte é leiloada, com o dinheiro indo para instituições que fazem trabalho social em Caxias. Espera conseguir patrocínio para as próximas edições. 

– Estou economizando até o ar que respiro, mas ainda tenho de onde tirar. Pior é saber que pessoas que não tem nada e estão sofrendo muito mais, sendo que muitas vezes não têm nem a condição de ficar em casa para cuidar da saúde –  diz.

Emoção ao falar do propósito da arte

Pintor e professor de arte caxiense Vasco Machado conta como enfrenta a falta de trabalho e renda durante a pandemia.<!-- NICAID(14531777) -->
Vasco Machado, 64 anos, perdeu a turma de alunos de arte em março e viu queda na venda de seus quadrosFoto: Acervo pessoal / Divulgação

O pintor caxiense Vasco Machado, 64, também se vê debaixo de mau tempo durante a pandemia. Conhecido por retratar temas regionalistas e paisagens e personagens da imigração italiana na Serra, Vasco também é professor de arte, com mais de 20 anos de ofício. Com um misto de tristeza e saudade, se emociona ao falar sobre a perda dos alunos na Molduraria Caxiense, onde leciona atualmente.

- Dei apenas dois dias de aula e de repente tudo parou. Nunca passei por uma situação dessas. Já estamos no final de junho e nada dá sinal de que vai voltar. Não tenho salário nem aposentadoria, a mensalidade dos alunos é o meu ganha-pão. Outra renda é a venda dos meus quadros, mas as galerias estão nesse abre e fecha, e as pessoas não estão comprando – lamenta.  

Agravante da situação de Vasco é o grupo de risco. Não apenas ele próprio, pela idade, mas também a maior parte dos seus alunos. O pintor trabalha com um público-alvo de aposentados, que tem o curso de pintura como um hobby.  Isolado em casa com a esposa, tem como único trabalho atualmente a ilustração do livro de um poeta tradicionalista de Itaqui. Assim como os colegas, espera por providência do poder público, para não passar por aperto ainda maior:

– É o momento mais difícil. No início tu acha que vai ser um mês, dois no máximo. Eu amo a arte e sempre fiz um trabalho com vontade e bem feito, para quando eu partir o pessoal dizer sobre mim: “ele trabalhava bem”. O artista não faz arte para ficar rico, faz porque nasceu para fazer isso. E ninguém merece passar por uma situação como essa.   

Momento requer empatia

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 10/06/2020 - Artistas e técnicos de espetáculos de diversão estão há cem dias sem poder exercer suas profissões por conta da pandemia de coronavírus. NA FOTO: Janio Nunes, que dá vida ao palhaço Zóinho, aproveita para trabalhar na construção de sua casa, enquanto não pode se apresentar nos palcos e ruas da cidades. (Marcelo Casagrande/Agência RBS)<!-- NICAID(14531493) -->
Produtora cultural pede para que produtores e artistas menos atingidos deixem editais emergenciais de fomento aos mais atingidos, como Janio Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

É fato que a pandemia afetou toda a cadeia artística e cultural, e que casos como os mostrados nesta reportagem são só alguns entre os que tiveram perdas mais acentuadas, por serem autônomos, independentes e terem a arte por como única fonte de renda. A produtora cultural Mona Carvalho, responsável pela Curadoria Independente, que desenvolve projetos como o Atelier Livre e o Blues Art Ville, considera que o momento é de deixar editais de emergência para a fatia de artistas que passam por mais necessidade. Mona, que é servidora municipal e coordena a Unidade de Artes Visuais da SMC, manifestou sua opinião esta semana nas redes sociais, e ampliou sua posição com a reportagem:

– É um ponto de vista. Às vezes as pessoas que estão numa posição um pouco mais privilegiada nem se dão conta. eu mesmo tive meu tempo para entender isso. Foi quando me senti muito mal ao preencher um edital com a Curadoria e depois perceber que, por ter meu salário de servidora, não dependo tanto quanto pessoas que desde março não recebem um nada. Não é que alguém não possa participar, é só um toque para que artistas e produtores reflitam, neste momento, se realmente estão precisando ou se podem deixar para o colega que está mais necessitado. É uma questão de empatia. 

Mona também se coloca à disposição para ajudar artistas que não tenham intimidade com editais públicos e queiram participar, mas que tenham dificuldade com o preenchimento. 

– Posso dar dicas, tirar dúvidas. Alguns podem não saber o que preencher como objetivo, como justificativa. Sendo que a curadoria também está sem atividades no momento, minha forma de colaborar com é auxiliar a quem quer desenvolver seu projeto.

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