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Opinião11/06/2020 | 07h00Atualizada em 11/06/2020 | 07h00

André Costantin: Johnny

Cão de bom porte: traço longínquo de um pastor alsaciano, misturado e confuso por sucessões de outras insondáveis raças

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Johnny quer me estraçalhar. Eu ainda nem sei o seu nome. A cada avanço posso ver as presas na boca arreganhada, belas e trágicas como as teclas de um piano. Cão de bom porte: traço longínquo de um pastor alsaciano, misturado e confuso por sucessões de outras insondáveis raças.

Apeado, cercado, faço uma dança ritmada e por certo cômica em torno do meu eixo, usando a bicicleta como escudo de defesa. Então me ocorrem sutis pensamentos acerca dos tutores deste simpático animal – os quais, após longos 30 segundos, dão os ares da graça pelo portão entreaberto da propriedade, aos gritos que ele, “Johnny”, irá solenemente ignorar.

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Tais devaneios não combinam no imediato da luta pela sobrevivência. Mas não posso deixar de meditar, quando Johnny recua dois metros, que uma categoria de homens talvez não seja talhada para ter cães; ou automóveis, armas e brinquedos afins.

Engato o pensamento de pouco antes, quando ainda deslizava incólume pela estrada que desce de Monte Bérico ao rio Tega: se, em uma visão otimista, sairmos mais ou menos vivos desse labirinto intestinal por onde enveredamos – como tento agora sair dessa –, o que faremos com os 30% de pessoas lesadas mentalmente, aderidas ao anacrônico fascismo à brasileira?

Como lidar com este um terço do tecido social, arrebanhado e espelhado na triste efígie do recente “mito” nacional? O que fazer destas milhões de almas tementes, subvertendo a narrativa mítica de Narciso, a contemplar até o fim nas lâminas d’água de Brasília – e nas telas dos smartphones – não a própria beleza, mas a feiura, a ignorância, a pulsão da morte?

Mitos e Narcisos, negócios à parte. Johnny se enfurece ainda mais com a intervenção (palavra medonha desse tempo) do seu dono. Ao invés de ceder às ordens do general, o cão encarna um exército de demônios. Ele quer saber o gosto da minha carne. Sigo bailando com a bike, no cascalho.

Em plena dança, a mulher da casa grita, da porta, que não preciso ter medo, porque Johnny, no fundo, tem raiva é da bicicleta. Pois, agora, estou entre a fera encanzinada e a milenar distopia de um homem e uma mulher sob o mesmo teto. Tal-quei!, Senhora: vou estaquear, aqui, orar e esperar Johnny decidir entre a minha virilha e o quadro de carbono desta fiel máquina ciclística. Também vou perguntar-lhe se a grafia do nome leva “h” e “y” – como acho que lhe cai bem.

Nesse dia, outros cães me perseguiram no giro até Santa Justina. Mas eu compreendo todos eles. Inclusive o Johnny. Também ando me sentindo assim.

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