André Costantin: entre cães - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião18/06/2020 | 07h00Atualizada em 18/06/2020 | 07h00

André Costantin: entre cães

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Eu já não andava muito sociável nesta borda da cidade, onde a mata densa lambe as janelas a oeste da casa. Desde a ascenção ao nosso lábaro estrelado dos fascistas de armário, do Estado militarizado etc., mais o advento da pandemia global, entrei de vez a conversar com o pessoal da minha turma: os cachorros.

Na semana passada, foi Johnny quem me deu um corridão. Meu troco veio, de leve; uma pequena vingança moral. Desta vez, descendo ao vale do Tega, tratei de cuidar antes da curva se o portão estava fechado. Evitando os trilhos de cascalho para não fazer barulho, vi que Johnny estava imóvel. Dormia.

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Era o sono sagrado de um anjo, aninhado no olho de uma nesga de sol que aquecia o gramado da casa. Quando cheguei bem perto, dei-lhe um susto: “Johnny!, seu vagabundo; dormindo no serviço?”. Ele se ergueu num arrepio. Mas quando avançava até a cerca, a inércia da bike já deixava apenas o espectro da minha figura aos olhos transtornados de Johnny.

Outra pessoa das minhas relações ciclísticas mais conturbadas é a Chiquinha, que toma conta de um pedaço de terra entre a capela de San Giacomo e o caminho velho de Caravaggio. Média, de pelo curto, cor de pinhão. Mas nenhuma mostrou-se tão audaz e decidida como Branquinha, a quem fui apresentado na estrada escondida que sobe do rio Caxias ao Travessão Carvalho.

Já sei: petiça, pelo curto, branca – é encrenca! Aos primeiros sinais da moça, o homem na varanda da casinha meio cabocla – decerto surpreso de ver viva-alma estranha cruzar por ali –, brincou: “cuida que ela aqui vai destruir a bicicleta”. Contrariando a simpatia e as súplicas do dono, Branquinha investiu com toda a gana. Num dos pulos dela, deu para sentir o beliscão dos dentes no tênis, na base do calcanhar.

Naquela banda, foi bem mais fácil o diálogo com um cão pastor, guardador dos arredores um casarão antigo, cujo dono é quem responde pela alcunha de “Alemão” – ambos gente fina. E também com um monstro que saltou a galope sobre o muro de taipa de uma propriedade para morder os pneus de um trator. Eu estava na fila. Na minha vez, botei-me a conversar com o gigante (rezando, de ventríloquo, na bike); ficou só me controlando.

Ainda bem que Branquinhas em geral não nascem em corpos de mastins. Mas, sempre que margeio o Tega, a certa altura, o olhar quieto e sabedor de um American Staffordshire (vulgarizado no balaio dos Pit Bulls), encerrado em uma jaula no fundo de um pátio, faz-me desconfiar das obras da Providência. É assim: viver entre cães – e os sapiens.

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