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Opinião25/06/2020 | 07h00Atualizada em 25/06/2020 | 07h00

André Costantin: cães de palafitas

Sigo andando por aí, desviando como posso dos homens e das pedras, havendo-me com os cães do caminho

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Sigo andando por aí, desviando como posso dos homens e das pedras, havendo-me com os cães do caminho. Em cada pessoa canina, ou acervo de cachorros de um determinado sítio ou lugar, é possível construir as imagens e até as finas psicologias das pessoas humanas que os tutelam.

Já relatei aqui o pacto de ódio entre o cão Johnny e eu (por inciativa dele), na costumeira descida até o Rio Tega. Mas igualmente me fascina a matilha de border collies, algo vira-latas, de uma morada camponesa às margens do mesmo rio, sempre que deslizo por aquela estrada.

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Lá, o suave declive do terreno está a meu favor. Eis que posso apenas acelerar a bike quando eles formam a ruidosa avalanche canina que vem testar os limites da cerca da propriedade. A julgar pela boa recíproca aos acenos que jogo para os donos da casa, creio que dificilmente aqueles collies me mordessem.

Todo outro mistério, porém, se configura nos cães de alguns quilômetros adiante. A estrada vai afinando, sob a “tectura sóbria” da mata (com a licença de João Guimarães Rosa). Surgem núcleos totalmente distintos da paisagem agrícola tradicional, em habitats de vidas e histórias por certo desgarradas das periferias desta e de outras cidades.

Então, em severo aclive do terreno – fato que, para um ciclista, muda a observação e a estratégia –, a carcaça de um fusca anuncia o território dos cães de palafitas. A casa principal, a garagem do carro, os viveiros das galinhas e dos patos, as instalações de apoio – toda a existência ali está equilibrada no ar, nas audaciosas estruturas suspensas em varas de eucalipto.

Quem anuncia ao passante tal conjunto arquitetônico é o cão ligado a um tabuleiro aéreo, de não mais que um metro quadrado, com uma casinha e o piso de tábuas precárias. A corrente, curta, não lhe permite avançar à estrada. Há um orgulho no seu olhar e no latido de pequeno cão de guarda, de todas as raças amalgamadas em uma só. Na última vez, não estava mais só: havia um novo cão, também amendoado, a dividir o seu metro existencial.

Além dos olhos daqueles cães, no fundo da encosta inabitável, ao invés das corredeiras do Tega, imagino as águas grandes do Rio Paru, planas, rumo ao Amazonas: existências ribeirinhas, delicadas teias de palafitas – tão distantes e tão próximas, pelas imposições da natureza e do humano existir. Por tais arranjos da vida e da ancestralidade, nos desprendemos fugazmente dos macacos; assim como os cães dos lobos. Para sermos, um do outro, humano e cão, o melhor e mais antigo amigo.

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