Adriana Antunes: o futuro - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião16/06/2020 | 07h00Atualizada em 16/06/2020 | 07h00

Adriana Antunes: o futuro

Espero apenas que quando eu estiver com 70 e converse com os que só têm 20, não nos julguem em demasia, pois a culpa de não ter feito algo, demarcará o nosso fracasso enquanto civilização

É verdade, vivemos tempos bicudos. Será ainda assim quando eu estiver com 70 anos? Não existe palavra inocente, tudo que é dito, pensado, desejado, tem um propósito. Não é possível ouvir o que se ouve e não enrugar a testa. Testa não enrugada é sinal de insensibilidade. Aquele que ainda se mantém sem rugas é porque não recebeu a triste notícia ou não soube entendê-la. Que tempos. Que tempos são esses? Já me sinto como se tivesse 70. E nos mantemos silenciosos diante de tantas barbaridades, inclusive perante o sujeito que atravessa a rua tranquilamente como se hoje fosse ontem. A cidade está uma desordem, o país, o mundo. As pessoas são a desordem. Não todas. Há as que silenciam e as que não conseguem enrugar a testa.

Leia mais
Adriana Antunes: família
Adriana Antunes: desapareceremos?

Contemplo a natureza, ali parece que o tempo não passa. O que passa é o homem, bicho homem. Nasce, cresce se tiver sorte, ganha dinheiro e depois morre. Morre igual ao lagarto atropelado na rua, a raposa envenenada, os gatos abandonados e o cachorro sarnento. Mas há de vir uma nova geração, essa que quando eu tiver 70 estarão com 20, que ainda nem nasceu. Sobreviverão ao dilúvio que agora nos afundamos. Imagino estar viva até lá e poder falar do que eles escaparam, dos tempos bicudos que enfrentamos, da falta de compaixão que tínhamos e do ódio que mobilizava muito mais que o amor. Falarei das testas enrugadas e das que se mantinham intactas, pois a indiferença deforma muito mais que a raiva ou o medo. Direi a eles do entusiasmo com que esperava o pé de camélia florescer e do horror que tinha ao ouvir os discursos dos políticos. Ainda assim não sei se seremos diferentes. Talvez estaremos iguais, esse é o maior pesadelo, estaremos contando as fábulas do lobo e da galinha, usando máscaras, não só metaforicamente, vivendo num estado permanente de corrupção com pessoas se achando superiores a outras por conta da cor.

Talvez não haja mais bibliotecas, porque alguém que acreditava em terra plana decidiu por fim aos livros, talvez as pessoas voltem a morrer de sarampo, porque as vacinas estarão desacreditadas. E ainda acho que existirão os que passarão pela rua assobiando uma cançãozinha qualquer como se nada estivesse acontecendo. O futuro pode ser pior.

Talvez alguns de nós cheguem até lá sem voz ou roucos, não porque gritamos, mas porque silenciamos demais até perdermos a própria voz. Espero apenas que quando eu estiver com 70 e converse com os que só têm 20, não nos julguem em demasia, pois a culpa de não ter feito algo, demarcará o nosso fracasso enquanto civilização. Ou já fracassamos e ainda não sabemos e assim não fará diferença nenhuma em envelhecer.

Leia também
Dez projetos culturais contemplados pelo edital FAC Movimento têm relação com a Serra
Sandra Cecília Peradelles: um grande amor
Publicitário gramadense participa de coletânea com texto sobre o isolamento social

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros