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Opinião09/06/2020 | 07h00Atualizada em 09/06/2020 | 07h00

Adriana Antunes: família

Nunca foi muito tranquilo a convivência entre todos, sejamos honestos, mas antes a ausência era suprida em telefonemas ou visitas nas datas comemorativas

Freud escreveu o Mal-estar na civilização em 1930, e lá ele diz que uma das causas de maior angústia do ser humano é o outro. Conviver com o outro é extremamente conflitante e difícil. Mesmo assim cá estamos nós, todos os dias, tentando, feitos Sísifo subindo a ladeira e carregando um peso insuportável. Eis nosso trágico destino, os gregos já sabiam. Exemplo disso é a nossa insistência em permanecer nos grupos de família de Whats. Nunca foi muito tranquilo a convivência entre todos, sejamos honestos, mas antes a ausência era suprida em telefonemas ou visitas nas datas comemorativas. Era mais suportável estar com a cunhada, o cunhado, o irmão, a mãe, o pai, o filho, o primo quando nos víamos menos, pois as diferenças eram diluídas dentro da exceção do encontro. 

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Hoje, com a tecnologia encurtando distâncias e ausências, o espaço para o encontro desapareceu, pois estamos fartos das piadas, das posições políticas e opiniões rasas que todos os dias entram em avalanche inundando nossas caixas de entrada. O que se tem ali é a certeza de um grande desencontro e a constatação de que apesar de compartilharmos o mesmo sangue e DNA somos muito diferentes e o que há sim, é um abismo que nos separa. Abismo que não sei se um dia conseguiremos superá-lo. 

Algo que ouço muito no consultório é sobre a angústia de desejar sair do grupo da família, mas de não saber como. Então surge o medo de não mais pertencer ao grupo, a culpa de ser o que pensa diferente e a ansiedade por saber o que vão falar se finalmente sair. Não estou dizendo que estar nesses grupos não seja importante e muito menos desvalorizando a família, mas sejamos sinceros, a situação é bem problemática. Agora então, em tempos de covid-19, crise política, fake news, vídeos de orações e racismo, o caldeirão está pronto para explodir. E ele explode. Explode em discussões, em coisas mal ditas e mal interpretadas, explode em mágoas, em ressentimentos, na exposição das diferenças e na nossa incapacidade de aceitar o outro como ele é, afinal, ou ele que pense como eu penso ou que se retire do grupo. Difícil.

Passada a raiva, pensemos juntos e com calma, afinal, sempre foi difícil e há três indícios que demonstram isso claramente: primeiro, é muito difícil viver, requer energia, coragem, paciência e uma boa dose de consciência; segundo, é muito difícil viver perto de alguém, pois se já é difícil conviver consigo mesmo, imagine conviver com o outro; por fim, é muito difícil conviver perto de alguém que se ama depois de viver junto. É quase da ordem do milagre. São muitas subjetividades envolvidas isso causa irritação, raiva, desgaste, além do que, sempre projetamos no outro nossas frustrações, dores e desilusões. 

Então calma, o problema não é você que não está conseguindo mais, ninguém de nós está.

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