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Opinião02/06/2020 | 07h00Atualizada em 02/06/2020 | 07h00

Adriana Antunes: desapareceremos?

Não há alternativas, o que há é a vida que nos atravessa e segue em frente, apesar das dores, da violência, do descaso, da ignorância

É como se estivéssemos agarrados ao mastro de um navio que está afundando. A vida no limiar da existência, depois, o desconhecido. Daí o medo, a insegurança, a violência. Alguns fazem de conta que nada está acontecendo. Dançam pelo convés, brindam, sorriem. Acreditam que tudo voltará a ser como era antes, onde poderão repetir suas vidas, suas rotinas, sabendo que cada respiração é igual a que a precedeu. Fingem bem. Fingimos bem. Acreditamos numa realidade duradoura que vai do passado ao futuro, sobrevivendo ao presente.

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Só que não. A vida se contrai num momento de dor e ao observar os fatos somos varridos por uma vertigem de incertezas, caos e desestruturação. Será transitório? Acreditar na transitoriedade é um sopro de esperança. Mas ninguém sabe a resposta. A única sensação que nos aproxima uns dos outros, em meio a tantas crises e intolerâncias, é que vamos despencar num abismo vazio. Fracassamos, perdemos, estamos sozinhos e diante de uma existência precária. Nossos sonhos, ilusões, desejos estilhaçam essa complacência de um mundo real e duradouro. Estamos nos sentindo bloqueados, angustiados, ansiosos, não conseguimos seguir em frente, mas retroceder é impossível. Desistiremos? Será que adianta continuar? Não há alternativas, o que há é a vida que nos atravessa e segue em frente, apesar das dores, da violência, do descaso, da ignorância.

Não são apenas as nossas vidas individuais que parecem estar diante de um impasse, somos nós enquanto sociedade, coletivo, mundo. Ninguém precisa dizer que vivemos dias turbulentos e assustadores. Por qualquer fresta que se olhe para fora se podem observar os perigos que estão à diante. Tentamos nos agarrar uns aos outros, por conta deste medo de afundarmos, através das redes sociais. Conectamo-nos, fazemos lives, mandamos emails, postamos fotos, recados, nos expomos e buscamos identificação. No entanto, estamos sozinhos e à deriva. Sabemos que algo precisa ser feito, mas o quê? Há os que buscam cargos políticos, se alimentam da tragédia, da indiferença. Enquanto aqui, na vida real, estamos de fato descendo ladeira abaixo e já não podemos mais pisar nos freios. Uma grande guerra é composta por outros milhões de pequenas guerras que foram além do ponto de ignição e se descontrolaram. Queremos uma mudança, mas estamos desligados, indiferentes demais, não nos sentimos obrigados a participar. Ainda esperamos que alguém faça por nós e assim, nos afundamos em nós mesmos muito antes do navio naufragar. Estamos fadados ao desaparecimento, senão enquanto civilização, enquanto sujeitos pensantes e capazes de reagir. Voltemos ao começo.

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