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Cultura18/06/2020 | 08h00Atualizada em 18/06/2020 | 10h18

A arte não para #2: Marco de Menezes guarda poemas à espera do fim

Poeta radicado em Caxias prefere esperar passar a pandemia para lançar novo livro, já concluído

A arte não para #2: Marco de Menezes guarda poemas à espera do fim Acervo pessoal/Divulgação
O médico e poeta Marco de Menezes Foto: Acervo pessoal / Divulgação

Em seu irrefreável afã de adiar sonhos, a Covid-19 fez agravar o “processo de decomposição” do próximo livro de Marco de Menezes, uruguaianense radicado em Caxias do Sul. O termo entre aspas é do próprio poeta, que durante a pandemia divide o tempo entre leituras, rabiscos de novos versos e projetos, a paternidade da pequena Cecília e a medicina, que o coloca na linha de frente do combate ao vírus.

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O sucessor de Pequena Madrugada Antes da Meia Noite (2017) e de Como se constrói uma melancolia de domingo (2018) já tem nome: Como estou dirigindo. Pronto para ir ao forno, devido à pandemia só deverá ser lançado no ano que vem. Outra obra, essa em andamento, ainda não foi batizada, mas será uma coletânea de ensaios biográficos poéticos:

– São pequenos perfis de pessoas que conheço no dia a dia. Alguns pacientes, alguns amigos de agora ou da infância, alguns personagens inventados. Olhando para o que já publiquei no passado percebi essa identidade no meu trabalho, que são essas pequenas biografias em forma de poema. 

Outro projeto suspenso é o lançamento dos novos volumes do selo Fresta Editorial, do qual foi um dos fundadores e um dos autores da primeira leva de plaquetes - livros impressos de forma independente e semi-artesanal, que cabem nos menores bolsos (e frestas) e trazem poemas, ensaios e narrativas curtas de ficção. Assim como na estreia, serão lançadas três plaquetes, desta vez com a caxiense Camila Cornutti (sua esposa e mãe da Cecília), o recifense Bernardo Brayner e o soteropolitano Antônio Marcos Pereira.

– Tocamos a “Fresta” com muito zelo, principalmente porque acreditamos nos pequenos projetos editoriais como resistência ao que está instalado, mas é algo mais afetivo, sem compromisso com qualquer tipo de agenda. São plaquetes prontos, mas preferimos esperar para que os autores possam lançá-los em suas cidades com a devida festa que merecem – comenta.  

Diante da inevitável pergunta sobre como os tempos pandêmicos andam influenciando seus versos, Marco volta a usar a figura da morte. Desta vez é mais direto: “estamos com medo de morrer”. E o medo da morte, acrescenta, produz novos conteúdos mentais.  

–  Estamos muito sozinhos fisicamente e nos embates com nossos demônios, com nossos medos de morrer. Isso nos deixa mais quietos, a pensar, recordar, projetar o que talvez não aconteça. Tu estás num contato maior consigo mesmo, mas sem saber bem o que é esse “consigo mesmo”. A pandemia agudizou meu estado de medo da morte e reforçou meu pensamentos mais pessimistas sobre civilização, espécie humana e o pesadelo político que vivemos. A arte, em especial a poesia, te liga com as bordas, com as margens, fazendo tocar esses conteúdos mais ligados à morte ou sentimentos mais terríveis. Nesse sentido, sim, a pandemia impacta – avalia.

Em meio a projetos do passado, do presente e do futuro, Marco também que seguir apostando no lado de editor - que desempenhou por 10 anos no extinto selo Modelo de Nuvem e mais recentemente com a Fresta -  ajudando autores a se lançar no mercado ou realizar novos projetos. Tem a ver, define, com ser um pouco “desiludidor” dos que sonham com altos voos – especialmente num mercado em crise –, mas também de desmistificador para quem ainda vê no livro um objeto sagrado:

– Os pequenos selos irão continuar respondendo e dando visibilidade para um conjunto bastante significativo de autores, com boa possibilidade de distribuição e mais próximo dos leitores, principalmente nas redes sociais. E ser pequeno não quer dizer ruim. É possível tocar projetos bem selecionados, com qualidade. Quero atuar nisso sem a urgência das grandes questões, conduzindo com carinho e sendo um facilitador. Mas desses planos a gente deixa para falar depois (risos).

o pássaro pensa sua arte
(poema inédito)

o carro foi inventado
na verdade
por inveja ao pássaro

vê só
esse pequeno gavião
faz ampla volta
que nenhum carro
faria

as sete voltas que ele deu
por sobre os bairros no feriado
o carro precário
lá embaixo
tenta em vão imitar

fui olhar lá fora agora
(poema inédito)

fui olhar lá fora agora.
não estavam meus amigos,
os chupins da arvorezinha
perto de onde deixo o carro.
talvez haja por aí uma papa-pinto.
pressinto seus sinais antigos
de proximidade e descaso.
o sol de um dia frio
é como uma carona
que se aceita contente.

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