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Opinião01/05/2020 | 16h15Atualizada em 01/05/2020 | 16h15

Tríssia Ordovás Sartori: Quero me reconhecer nas fotos

Tenho tentado editar o mínimo possível as minhas lembranças fotográficas, aceitando a imperfeição e a impermanência

Tríssia Ordovás Sartori: Quero me reconhecer nas fotos Fabio Panone / Especial/Especial
Foto: Fabio Panone / Especial / Especial
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Olhando para uma foto da minha infância, em que eu parecia bem faceira usando um batom vermelho com uns cinco anos, comecei a pensar em como vamos deixando para trás aquilo que éramos, em como mudamos ao longo dos anos e como as fotografias podem ser o único objeto que nos remete para quem fomos um dia. As fotos e os amigos de longa data, na verdade.

Eu nunca mais usei batom vermelho — e raramente uso de qualquer cor — mas gosto de olhar para aquela guriazinha com carinho. Ainda mais sabendo que nos idos anos 1980, uma fotografia tinha uma importância diferente da que tem hoje – eram mais raras, deixadas apenas para momentos pontuais, não víamos o resultado na hora e não podíamos tentar repeti-las. Agora, qualquer criança com sete dias de vida tem mais fotos do que toda a minha geração tirava em 10 anos.

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Fotografias podem ser uma espécie de portal. Uma foto no porta-retrato do quarto, escolhida com cuidado, concentra lembranças de um ano inteiro. Uma foto da formatura na casa dos pais simboliza todo o esforço de uma caminhada quase coletiva. A imagem da família reunida lembra como já foram felizes, como os laços verdadeiros permanecem apesar da distância ou da morte. Outras fotos antigas com amigos, em festas ou viagens, mostram que, felizmente, também aprimoramos nosso senso estético. Quem não sente ternura ao olhar uma foto de criança de alguém e ver que continua com o mesmo rostinho? Ou elabora uma história ao encontrar uma foto de casamento dos avós?

Andei mexendo em arquivos antigos e senti uma nostalgia boa. Mandei algumas para uma amigona que pediu peloamordedeus para eu parar de desenterrar lembranças. Mas, vejam o poder simbólico de um retrato, eram apenas fotos. É inevitável não lembrar de um dos versos da canção A Lista, de Oswaldo Montenegro, aos folhar os álbuns: “Onde você ainda se reconhece/Na foto passada ou no espelho de agora/Hoje é do jeito que achou que seria?”. Amo fotografar as pessoas com quem convivo em situação cotidiana, sem que estejam arrumadas para uma festa ou prestando muita atenção à câmera do celular. Tenho tentado editar o mínimo possível as minhas lembranças fotográficas — é o que fazemos nas imagens digitais, né, repetindo a pose à exaustão, até o sorriso ficar perfeito, mesmo que não seja espontâneo. É importante lembrar das imperfeições e da impermanência, porque somos assim.

A perfeição é uma utopia até nas fotos do Instagram: quero me reconhecer naquela guriazinha, nas imagens engraçadas do colégio, naquelas que minhas amigas me matariam se mostrasse para alguém e também no reflexo do espelho. Desejo dias bem vividos e que a passagem dos anos esteja representada,  de verdade, por cliques que ajudem a refrescar nossa memória sobre quem fomos e quem ainda poderemos ser, de preferência com um monte de gente querida que aparece e ainda continua por perto, não apenas dentro do baú ou do coração.

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