Sandra Cecília Peradelles: a pele que habito - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião25/05/2020 | 07h00Atualizada em 25/05/2020 | 07h00

Sandra Cecília Peradelles: a pele que habito

Descobri que não tinha nada em mim que não esperava, o mundo, que não mudasse

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

Todos os dias, há 33 anos e alguns meses, tenho eu, vivido dentro desse corpo, escondida e protegida sob essa pele. A pele a qual habito é boa, me serve bem. É do tamanho exato da minha necessidade de existir. Nem frouxa, nem justa, é exata. Eu devia sempre ter estado feliz por ter uma proteção tão na medida. 

Lembro-me de quando eu, gigante criança, vivia plena, em harmonia com meu corpo, em paz com meu espírito. A existência fazia todo sentido e, eu, sentido algum buscava. Estava nos dias só por sentir as pessoas, as coisas, cada experiência. Bons tempos! Suspiro nostalgicamente ao lembrar. 

Fui crescendo e a criatura gigante que eu era apequenou-se. Triste! Foi me colocado, em algum momento, que meu corpo não era bom. Não que não fosse bom para mim, era. Aparentemente, meu corpo não estava de acordo ao que o mundo queria. Ele não gostava de ver-me tal qual nasci, sem questionar, criticar, espezinhar, humilhar. Queria-me outra. E seu desejo sempre fora voraz.

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Descobri que não tinha nada em mim que não esperava, o mundo, que não mudasse. O corpo, o cabelo, o sexo. O sorriso, a fala, a liberdade. Entendi muito cedo que dificilmente o agradaria. E eu queria tanto. Sofria tentando ser melhor para ele. Uma ou duas vezes acreditei conseguir. Entreguei-me à sua vontade e mudei: emagreci, alisei o cabelo, outras roupas, outro comportamento, risada baixa, voz quase muda, sexo inexpressivo. Pensei, naquele tempo, que, daquela vez daria certo, seria aceita, finalmente. Viria, enfim, a felicidade tão sonhada. Ah, eu estava tão empolgada para começar a viver. 

Acontece que o apetite do mundo era voraz, eu já disse. Não se contentou com meu supremo esforço de transformação, queria mais. E eu dei-lhe tudo o que pediu infinitas vezes, lhe dei tudo o que tinha. Segui mudando e mudando e, em dado momento, nem sabia mais quem eu era. Estava exausta de tentar, então, eu desisti de agradar. 

Minha desistência trouxe-me momentos extraordinariamente estranhos. Percebi que fui tão cobrada que me acostumei, de vítima fui a algoz. Desaprender a ser cruel consigo mesma é duro. Dia após dia, em constante exercício de consciência e autoperdão, sigo. 

Já são tempos idos estes, mas como uma viciada em agradar, recaídas são comuns, no entanto, elas são cada vez mais rareadas. Devagar, no passo que as pernas podem, vou andando e olhando para mim e até gostando do que vejo. Indo e me expondo ao que realmente sou, reencontrando com quem fui, alterando meu caminho, assumindo total responsabilidade por qualquer nova rota que eu possa escolher.

Algo de imensidão vai, pianamente, crescendo em meu interior ao ponto de tomar forma física. O corpo baila pela urbe cinza, o sorriso se expande ao infinito, os cabelos têm longas conversas com o vento, a fala é um eclipse sobre os que gritam e o sexo… Ah, o sexo é incandescente. 

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