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Opinião29/05/2020 | 20h00Atualizada em 29/05/2020 | 20h00

Nivaldo Pereira: estrelas e bandeiras

Conforme decretos federais, o céu da bandeira deve ser visto na perspectiva de um observador situado fora da esfera celeste

Nivaldo Pereira: estrelas e bandeiras Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi

Havia um astrólogo na frota de Pedro Alvares Cabral naquele 22 de abril de 1500 em que o futuro Brasil apareceu no horizonte. Era o Mestre João, um espanhol versado em medicina e outras artes, como o estudo técnico e simbólico do céu. Cinco dias após o avistamento da terra, Mestre João desembarcou na praia de astrolábio em punho. Pela posição do Sol ao meio-dia, mediu a latitude daqueles sítios com considerável precisão. Após o poente, mapeou o conjunto de estrelas do céu noturno visto dessa parte do globo. Uma constelação especial, em formato de cruz, foi por ele batizada de Cruzeiro do Sul. O astrólogo relatou esses fatos em carta ao rei português D. Manuel, de quem era consultor. Com a exploração dos mares sulinos, o Cruzeiro do Sul tornou-se fundamental na orientação náutica.

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Na nova terra, o símbolo da cruz também se fazia destacar. No dia 26 de abril, domingo de Páscoa, era celebrada ali a primeira missa, sob o olhar curioso dos nativos. O capitão Cabral chamou a terra de Ilha de Vera Cruz, ainda sem saber de sua dimensão continental. Na carta que enviaria ao rei, o escrivão Pero Vaz de Caminha deixava claro o que entendia por missão divina em relação aos nativos: “não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé”. No projeto mercantil de encontrar riquezas e no afã da conversão religiosa, os portugueses firmavam na nova terra a sentença funesta dos viventes locais – o sangrento calvário indígena.

Séculos depois, o Cruzeiro do Sul identificado por Mestre João, entre outras constelações próximas, estaria estampado no centro do símbolo máximo do Brasil, sua bandeira republicana. No entanto, tal bandeira trazia um equívoco: as estrelas apareciam invertidas, como num espelho, e não como vistas realmente. Talvez para não admitir o erro, o governo jamais o corrigiu. Conforme decretos federais, o céu da bandeira deve ser visto na perspectiva de um observador situado fora da esfera celeste. Ou seja, nosso céu na bandeira é a visão de quem está muito acima de nós. Deus acima de todos? Os poderosos de sempre?

Corta para 2020. No clima de espelhos distorcidos que há tempos o Brasil vem vivendo, efeito da oposição de Netuno em Peixes ao Sol em Virgem do país, a bandeira nacional foi apropriada sem pudores pela parcela mais autoritária da população. É como se a inversão do real, já simbolizada no céu invertido da bandeira, tivesse se materializado no cotidiano. É como se a nossa deformação de poder, que nega a cidadania e a liberdade, quisesse se impor como identidade única. Nessa realidade insana, cultua-se a ignorância e a morte em nome de crenças supostamente cristãs. Que grite outra vez o poeta Castro Alves: “E existe um povo que a bandeira empresta / Pra cobrir tanta infâmia e covardia!...”.

Aí chegamos ao recente dia 22 de abril, exatos 520 anos após a chegada dos brancos colonizadores ao Brasil. Outros brancos no poder – e apenas brancos – já não se ocultam sob nobres justificativas para impor um projeto assumidamente destrutivo ao país. O que restou dos povos indígenas virou alvo de declarados ódios. O horizonte de terra à vista agora é a terra revirada dos cemitérios, destino preferencial de pobres e negros. Nesse grotesco drama, quando o país precisa usar literais máscaras de proteção, é quando todas as máscaras metafóricas caem. E a face do horror se revela.

Perdoe-me o leitor pelo final sombrio desse texto, mas, nessa nau à deriva, com o coração tomado de indignação, vivo a me perguntar por que precisamos carregar essa cruz.

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