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Opinião29/05/2020 | 07h00Atualizada em 29/05/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: novos limites

Administrar trabalho e família exige grande competência e a certeza de que isso continuará perpetuamente

Pergunto para amigos próximos como está a relação com seus filhos, principalmente os pequenos. Há mais de dois meses trabalhando em casa e com as escolas fechadas, viram-se forçados a uma convivência de vinte e quatro horas por dia. A maioria deles fez um gesto de suave desespero com os braços e respondeu que é um dos maiores desafios desse período. Dá para entender perfeitamente. O cuidado com as crianças, nas últimas décadas, passou a ser quase que integralmente terceirizado. No âmbito doméstico, certa dose de lazer, um tanto de liberação para uso do celular e, se descuidar, praticamente nem se percebe que esses dínamos em miniatura ocupam o mesmo recinto que os adultos. É a forma que nosso tempo encontrou para lidar com a sobrecarga de tarefas que são impostas. É irracional desejar que seja diferente. Administrar trabalho e família exige grande competência e a certeza de que isso continuará perpetuamente. Talvez em outra época, quando os deveres vinham arrolados a uma camisa de força e só existia um modelo de comportamento a ser seguido, nem sequer nascesse esse questionamento. O roteiro de uma existência já vinha definido e escassas variáveis cabiam dentro de um universo circunscrito a diminutas comunidades. A repetição pode gerar tédio, porém, engendra também segurança. Perde-se um tanto de liberdade, mas a ausência de um manancial de escolhas é um excelente antídoto para a ansiedade.

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Posto isso, verificamos na prática como é difícil competir com um mundo cheio de seduções e novidades. A falsa noção de que inexistem limites e que se deve experimentar freneticamente, numa espécie de euforia perpétua, reduz o espaço do lar e o torna uma clausura, independente da metragem que tenham as residências. Se eu me visse em tal situação, tendo que gerir interesses profissionais, sem descuidar dos meus rebentos, aproveitaria para lhes devolver a noção (perdida à larga) de que é preciso revisar o “tudo posso, tudo mereço”. Ensinar a eles o valor terapêutico da frustração. De que a vontade sempre esbarra numa presença alheia, sujeita aos mesmos desejos que os nossos. Além disso, o resgate do diálogo pode provocar uma verdadeira revolução comportamental. A antiga e esquecida prática de olhar para a pessoa que está diante de nós (e não para uma tela luminosa) costuma causar efeitos surpreendentes. Quem está atento aproveitará esse estreitamento de laços, percebendo-o como uma benção, uma rica oportunidade para conhecer melhor os que muitas vezes se tornaram distantes.

Nem toda intimidade forçada é boa. Mas se não há diversa possibilidade no horizonte, um sinal de inteligência é minimizar os atritos em detrimento de uma nova ordem de relacionamento. Futuros bons amigos podem estar morando a poucos metros de você.

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