Gilmar Marcílio: estabilidade - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião22/05/2020 | 07h00Atualizada em 22/05/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: estabilidade

Desafiados em tantas certezas, precisamos repensar o sistema de valores que nos sustentava até então

Há muitas lições a serem aprendidas se uma crise se afigura. Desafiados em tantas certezas, precisamos repensar o sistema de valores que nos sustentava até então. Creio que o que há de emblemático é o desmoronamento de uma convicção que costuma nos sustentar: a de que a vida está sendo regida pela estabilidade. Puro engano. Tudo é frágil e desobedece à lógica que gostaríamos estivesse instalada. Além da aleatoriedade, há um descaso cósmico em relação ao que ocorre conosco, tão desejosos de nos perceber como figuras centrais e insubstituíveis. Longe de representar algo trágico, apenas sinaliza a necessidade de construir um corolário de crenças e verdades que alimentam a ilusão de permanência e acomodação. O fato de que existir pressupõe aprender a equilibrar-se sobre uma corda bamba, olhando ora para planícies, ora para abismos. A boa notícia: revelamo-nos geralmente eficientes na administração das adversidades. Temos uma espécie de dispositivo darwiniano que nos permite uma adaptação rápida se o perigo se avizinha. Forças que supúnhamos ausentes tornam-se reais e eis que nos encontramos prontos para o enfrentamento.

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Não sou bom em fazer prognósticos e me furto de esboçar um retrato da humanidade quando se instaurar novamente um sentido de normalidade. Espero, sinceramente, que tenhamos a capacidade de rever conceitos que raramente se sustentam a um olhar aprofundado. Melhor confrontar a realidade do que esconder-se num mundo fantasioso, onde a natureza se verga às vontades de cada um. Sempre pareci um pouco ingênuo aos meus amigos por me encantar com o que há de mais prosaico, simples. Acordar pela manhã agradecendo pelo ar, pelo sol, pela autonomia que me permite ir e vir segundo meus desejos. Sabendo que pode esboroar a qualquer momento. Não a manutenção de uma consciência trágica das eventuais perdas, mas a constatação de que há uma linha do tempo que se transforma e se inclina sobre seu próprio fim. Normalmente não preciso ver nada morrendo para me dar conta do precioso e do nobre. Mantenho os olhos abertos como uma proteção contra a anestesia que a repetição deixa em nós. Há milagres avulsos acontecendo constantemente. É necessário descobrir isso antes que um vírus ou uma bactéria façam desmoronar a onipotência.

Gosto de traçar um arco invisível em torno de mim. O que fui, sou e pretendo ser. Colocar as coisas numa perspectiva mais abrangente do que essa que permite compreender apenas o que está posto bem em frente. A única lei imutável é a da mudança, ensinam-nos todos os grandes mestres. Aprendamos a aceitar os fulcros de luz e a escuridão. Ambos passam e retornam. Somos maiores ao assumirmos uma estatura modesta diante de um universo que dança indiferente e silenciosamente ao nosso redor.

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