Confinamento pode conduzir decisões ligadas à imagem que são libertadoras às mulheres - Cultura e Tendência - Pioneiro

Vers?o mobile

 
 

Reportagem do Almanaque01/05/2020 | 15h40Atualizada em 01/05/2020 | 15h44

Confinamento pode conduzir decisões ligadas à imagem que são libertadoras às mulheres

Muitas estão repensando hábitos como maquiagem, depilação, uso de chapinha, uso de sutiã, uso de salto, entre outros

Confinamento pode conduzir decisões ligadas à imagem que são libertadoras às mulheres Arte de Luan Zuchi/
Temas transformadores como auto-observação, autocuidado e autoestima estão em voga no período de distanciamento social Foto: Arte de Luan Zuchi

O confinamento em casa, por conta dos riscos da pandemia de coronavírus, tem sido uma experiência completamente nova para todos. Entre as muitas observações que o momento sugere, uma está bem ligada ao universo feminino, e pode ser antagônica. Afinal, você já imaginou ressignificar a sensação de aprisionamento fazendo descobertas libertadoras? Isso tem se tornado realidade para diversas mulheres que, nesse período “a sós consigo mesmas”, passaram a refletir muito mais sobre temas transformadores como auto-observação, autocuidado e autoestima. Afastadas da rotina de trabalho, faculdade, escola, festas, algumas estão repensando hábitos como maquiagem, depilação, uso de chapinha, uso de sutiã, uso de salto, entre muitos outros. A ideia é entender se essas práticas estão mais ligadas a um desejo pessoal ou a uma tentativa de encaixar-se num padrão estético aceitável socialmente. 

A artesã moradora de Caxias Bianca Maria Sganderlla, 36 anos, tem usado o momento para se aprofundar em temas que já a intrigavam antes. A primeira ficha caiu num show do grupo porto-alegrense As Tubas, num momento em que ainda era possível fazer descobertas em grupo, no meio da aglomeração. Bianca prestou atenção na letra da música Pelos Pelos (Pelos pelos, pelos cabelos negros como a noite, a brotar pelo poros, imploro, deixa despontar. Pelos pelos, pelos poros, o simplório está. Sem se cortar, sem se raspar, sem se rasgar, sem se arrancar, pelos pelos) e passou a considerar abandonar a depilação. 

– Eu fiquei admirada e ao mesmo tempo mais forte comigo mesma, ser mulher é ter pelos – defende.

Quando a situação de distanciamento social veio, ela passou por um momento de provação, que depois ajudou a reforçar uma convicção.

– A quarentena me trouxe essa reflexão, por um lado, porque nesse período conheci um cara virtualmente que me chamou a atenção. Então eu me vi tirando esses pelos para agradar, pintando unhas, que não tenho costume, e aí percebi que agora eu consigo ver tudo com outros olhos. Eu não me importo ou não me incomodo com meus próprios pelos perante o olhar alheio. Estou bem comigo, sem ou com eles. Vou ser julgada pelo outro em muitas situações, mas isso não é o que mais importa. Quando meus pelos estão presentes, eles são parte de mim, me protegem, são significativos e têm um porquê de estarem ali, mas se em algum determinado momento eu quiser tirá-los, eu posso. Não é isso que me define como realmente sou – sentencia.

Assim como Bianca, muitas outras mulheres estão refletindo mais sobre essas questões durante o período de distanciamento social. Claro que haverá muitas querendo maquiar-se ou usar salto para ficar em casa, e não há absolutamente nada de errado nisso. O questionamento que é preciso ter em mente, como uma espécie de mantra, é “estou fazendo isso para mim ou para os outros?”.

– As mulheres muitas vezes caem nessa armadilha de serem reféns de fazerem as coisas para mostrar para os outros. O saudável é fazer as coisas para elas se sentirem bem. É se olhar no espelho, se saber dentro de casa sozinha, mas se gostando – explica Debora Frizzo, 50, pró-reitora do grupo Uniftec, além de coordenadora e professora do curso de Psicologia.

A psicóloga sugere que o momento de distanciamento social que estamos vivenciando agora não deve ser visto como algo negativo. Pelo contrário, ela defende o potencial transformador deste período em que nos encontramos muito mais abertos a escutar nossos próprios anseios.

– A grande dica é utilizar o tempo para se auto-observar, porque como resultado dessa auto-observação virão todas as descobertas e a vontade de viver essas descobertas. As mulheres, de um modo geral, vivem muito numa armadilha do que o pai espera, depois do que o namorado espera, o que marido espera, o que os filhos esperam, o que o chefe espera. A mulher tende a cair nessa cilada por muitos motivos. Eu tenho vários papéis que eu preciso manter, mas no meio disso tudo preciso entender o que é meu, quem eu sou de verdade? Dessa reflexão vai sair uma descoberta, e seja ela qual for, vai nos ajudar a viver de uma maneira mais tranquila. E todos vamos precisar estar assim, mais tranquilos com a diversidade, quando tudo voltar ao normal – propõe Debora.

Para a psicóloga, psicanalista e integrante do coletivo feminista Entre Elas, de Farroupilha, Ana Paula Rabello Soares, 26, o distanciamento social que vivenciamos agora em diferentes níveis pode ser crucial para questões da imagem.

– As mulheres sempre aprenderam, enquanto gênero, a maquiar seus sentimentos e sua aparência. Para a condição do isolamento, a gente não tem mais tanto por que maquiar, disfarçar. Fica como se está sentindo, o corpo, os conflitos desse tempo, deixando isso transparecer através da aparência. O espelho acaba refletindo muito mais esse olhar e, deparar com isso, faz com que se possa fazer as pazes com a própria imagem, perceber esses disfarces, que, às vezes, são tão recorrentes e passam imperceptíveis no cotidiano – aponta ela.

Durante a quarentena, a própria Ana Paula deixou de retocar a cor do cabelo – até então o mantinha pintado de ruivo – e tem encarado isso de forma positiva. A questão toda, conforme ela, tem a ver com enxergar-se de uma forma mais honesta, menos direcionada ao reconhecimento do olhar do outro.  

– Estou podendo reinventar um outro olhar para o meu cabelo – afirma.

A auto-observação e o carinho com o próprio corpo e imagem são caminhos positivosFoto: Arte de Luan Zuchi

Enxergar-se com carinho

A publicitária Ivana Rebeschini, 29 anos, é uma das articuladoras do grupo Verdade Feminina, que atua no WhatsApp e redes sociais refletindo sobre questões do universo da mulher – e que tem um braço na Serra, só com integrantes moradoras da região. Questões como o uso de maquiagem, de sutiã, de chapinha ou o ato de depilar-se e fazer as unhas estão corriqueiramente nas discussões abordadas, mas durante o período de reclusão social, a reflexão ficou ainda mais direta. “Até quando vamos ficar usando coisas para agradar os outros? Fingindo que é para mim ou porque eu gosto? Se fosse genuinamente para você, porque você gosta, você também usaria quando só você fosse ver?”, questionou Ivana dias atrás na conta que mantém no Instagram. A resposta nem sempre é simples, faz parte de uma desconstrução de grande porte. 

– O distanciamento fez com que muitas mulheres se questionassem: o que eu faço por mim e o que eu faço pelos outros? Acredito que muitas vão refletir e mudar alguns hábitos com tudo isso. Infelizmente, não todas, a cobrança da sociedade para a mulher ser “perfeita” é muito cruel. Somos cobradas a vida inteira para performarmos uma feminilidade e acabamos naturalizando isso. Somos julgadas se escolhemos algo diferente do esperado. Ser julgada dói e nem todas as mulheres estão preparadas para lidar com isso – pondera.

Para tentar se livrar de algumas amarras sociais, é preciso saber como analisar escolhas. Muitas vezes, respostas prontas acabam sendo reproduzidas para justificar atos. Conforme Ivana, é importante levar em conta alguns critérios:

– Todos os hábitos que mudam a nossa essência e fazem alterar algo em nós mesmas são imposições da sociedade. E não tem nenhum problema de aceitarmos isso, mas é necessária a reflexão do motivo real das nossas escolhas. Se é realmente por nós mesmas ou se é somente para agradar o outro. Para mim, o distanciamento social fez com que eu confirmasse algumas suposições que eu já vinha refletindo. Eu tenho consciência de que algumas escolhas minhas são produto de uma cobrança da sociedade. Tento mudar e refletir sobre isso diariamente. É um processo, uma desconstrução, e cada uma tem seu tempo. Acredito que esse período de isolamento social é uma ótima oportunidade para fazermos uma autoavaliação.

A publicitária comenta que pretende levar adiante algumas atitudes intensificadas em período de quarentena:

– Sutiã é uma coisa que eu não estou usando na quarentena e que pretendo diminuir de maneira geral. Assim como usar roupas mais confortáveis. Salto eu praticamente não uso mais também.

Acima de qualquer escolha, ensina ela, está o olhar atento a si mesma. Só esse caminho parece capaz de conduzir uma liberdade cada vez mais consciente.

– Espero que cada vez mais mulheres consigam impor as suas vontades acima do que esperam delas. Trabalho diariamente para ajudar uma por uma a se enxergar de uma forma mais carinhosa.

:: Faça parte do grupo Verdade Feminina
O link para acessar os grupos de WhatsApp pode ser encontrado nos destaques do Instagram @vfeminina.

Leia também
Casa & cia: dois negócios, uma organização visual
Casa & cia: inspirado no conceito 'hygge', apartamento em Caxias evidencia conforto e personalidade
Nivaldo Pereira: notícias de Júpiter
Viaje sem sair de casa: conheça duas cidades do México que preservam história, cultura e tradições

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros