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Opinião06/05/2020 | 07h00Atualizada em 06/05/2020 | 07h00

Ciro Fabres: heróis mascarados

Máscaras sempre remeteram ao imaginário

O Zorro quem sabe tenha sido o personagem mascarado mais famoso. Era um justiceiro mascarado. Outros heróis, e há uma longa lista deles, também usavam e usam proteção para o rosto, máscaras, por assim dizer, e toda uma paramentação que inclui capas e vestimentas customizadas. Tudo para proteger identidades.

Máscaras sempre remeteram ao imaginário. Tanto é assim que eram utensílio popular no Carnaval de antanho, quando, em geral, se assumiam outras identidades, pelo menos esse era o propósito dos carnavais de salão de antigamente. A imaginosa ideia dos carnavais, porém, foi abandonada, e essa singela modalidade de máscara que inundava os salões ficou no tempo. As mais comuns eram máscaras de papelão que remetiam a personagens diversos, ao gosto e personalidade do folião, com uma presilha de elástico para a cabeça. Não protegiam mais a identidade de super-heróis salvadores da humanidade, mas as de pretensos heróis por algumas noites, que podiam se desfazer delas e retornar à identidade original a seu bel-prazer. Antes de mais nada, tudo era brincadeira.

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Era a mesma ideia, de assumir outras identidades, a mover os bailes de máscaras. Estes, bem mais sofisticados, menos improvisados, a engendrar intenções, mais prolongados no propósito, até mais misteriosos, apropriados para ambientes com menos burburinho ou brincadeiras pueris.

Diz-se também que é "um mascarado" aquela pessoa, em geral famosos, que se esqueceu das origens e deixou-se seduzir pelo manto da soberba, que lhe cai como uma “máscara” simbólica e conforma outra identidade, menos humilde, por cima da original. Neste caso, tem a ver com esconder identidades prévias.

Diferentemente, as máscaras atuais que agora inundam as ruas não têm o propósito de proteger identidades. Mas sim a saúde e a vida. Não são usadas por salvadores da pátria, mas, em boa parte dos casos, quem as veste é, sim, herói de seu tempo. Não o super-herói pretensioso e clássico. Mas um herói da sobrevivência, acostumado a apertos e filas, que compartilha ambientes propensos ao contágio, que tem de disputar um leito de UTI, em uma disputa injusta e indecente, que encara horas em aglomerações atrás de R$ 600. São heróis mascarados.

Dias tristes esses, em que a máscara não remete mais à imaginação, em que morrem milhares, anônimos às vezes, mas com a história singular de cada um, enterrados em covas rasas e coletivas, sem a solenidade e o cuidado merecidos nem a despedida dos queridos. Dias que, ainda por cima, são acompanhados de perdas em série, como as de Moraes Moreira, Aldir Blanc e Flávio Migliaccio. Choram Marias e Clarices, choram bêbados e equilibristas. E choram por tantas perdas todos os demais nomes de batismo.

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