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Opinião13/05/2020 | 07h00Atualizada em 13/05/2020 | 07h00

Ciro Fabres: esse rock...

Estamos, já há algum tempo, descompassados do rock, o velho e bom rock'n'roll

Nosso cenário musical desfila a nossa frente, e não há muito o que contestar sobre sua sinceridade, isto é, o que diz a nosso respeito. Estamos, já há algum tempo, descompassados do rock, o velho e bom rock'n'roll. E isso depõe terrivelmente contra nós, como sociedade. É um atestado eloquente de alguma coisa, que suspeitamos o que seja – de que ficamos mais chatos, mais sem graça, menos imaginosos, menos experimentais. Perdeu espaço o rock, é evidente – apesar da resistência que sempre haverá e da antologia que não se apaga e ainda seduz novos seguidores. Menos mal.

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Não faz muito, meses atrás, o rock foi associado ao satanismo pelo já duas vezes nomeado presidente da Funarte do Governo Bolsonaro, Dante Mantovani – mas que nas duas vezes ficou sem o cargo. Ativa a droga, que ativa o sexo livre, que ativa o aborto, que ativa o satanismo, defendeu ele. 

Ah, esse rock...

Pois agora o rock volta a ser assunto com a perda de Little Richard. O pai do rock, dizem. Não é pouca coisa, portanto. Hoje é assim: só de tempos em tempos o rock retoma algum espaço, esse legado para a humanidade deixado pelos Anos 50, 60 e 70. Little Richard transpôs para o rock a música negra com origem no ambiente gospel – a música dos cultos evangélicos – e no rhythm & blues. 

Sim, Little Richard era evangélico, e essa seria uma contradição insanável para muitos. Sim, Little Richard perambulou pelos dois territórios, os ambientes religioso de sua origem e do rock – o sacro e o secular. Como pode? Os relatos de sua trajetória registram que, mesmo enveredando pelo território do rock, perambulou em alternância, ou simultaneamente, pelos dois ambientes. Nada mais rock’n’roll do que essa aparente contradição. Alguns não resistirão a estabelecer a dualidade entre o sagrado e o profano, em uma relação automática e incorreta, pois não há essa dualidade na trajetória de Little Richard. Tudo faz parte de uma mesma personalidade, sem incoerências, mas sim convergências. Sim, convergências entre o rock e a religião.

“Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”, escreveu o apóstolo Paulo aos Coríntios, em um enunciado sobre a liberdade cristã. Liberdade, eis o ponto. Quem sabe o que convém ou não é cada um, cada pessoa. Muitos, de dentro e de fora das igrejas, preferem advogar a associação de proibições e moralismos às religiões, como se o universo da religiosidade e das escolhas individuais não fosse muito mais complexo e cheio de nuances, onde não cabem teses esquemáticas, quando não binárias. 

Little Richard fez suas escolhas e foi senhor delas. Foi rock’n’roll o tempo todo. 

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