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Crônica01/05/2020 | 08h15Atualizada em 01/05/2020 | 08h15

Andrei Andrade: Obrigado, Missi

O bar que fez de Caxias do Sul a Caxias do Blues deixará saudade eterna na Estação Férrea

Andrei Andrade: Obrigado, Missi Felipe Nyland/Agencia RBS
Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Existe um blues de Muddy Waters chamado Sad, Sad Day. Triste, Triste dia, em tradução livre. O blues, afinal, é sobre estar triste, mas também sobre superar a tristeza colocando-a para fora, se possível em forma de música. Durante 13 anos, Caxias do Sul teve seu espaço para aqueles que encontram no blues o ritmo para afogar as mágoas ou para se divertir. A notícia de que o Mississippi Delta Blues Bar não voltará a abrir suas portas nem mesmo após o fim da pandemia de covid-19, pelo menos não no Largo da Estação Férrea, foi para músicos e frequentadores o triste, triste dia que marca o fim de algo bom.

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Antes de inaugurar a filial do bar no Rio de Janeiro, em 2017, Toyo Bagoso me mostrou uma foto da decoração ainda simples daquele local então prestes a abrir, respondendo que não se abre um bar com as paredes forradas de quadros. A decoração, disse, tem de acompanhar a própria história do local. Era assim, com suas paredes repletas de memórias que o traduziam em sua intenção de ser um templo do blues e para o blues, que a história do Mississippi se contava em tempo real. Além de shows memoráveis e dos incontáveis brindes à amizade, na minha memória irão restar intactas as paredes repletas de informação visual, remetendo aos festivais, aos músicos que passaram por lá, às juke joints norte-americanas que inspiraram a concepção do Missi e aos muitos mestres do blues.

Bem como a morte faz parte da vida e vice-versa, virar lembrança faz parte da história dos bares que marcaram um público ou uma comunidade. Às vezes é um caminho mais digno do que perder a própria identidade a fim de se adequar a um cenário econômico ou surfar numa nova onda de comportamento. Caxias já sentiu o pesar de ver fechar o Vagão Classic, o Revival, o Galleria, entre outros que os recém-chegados só ouvem falar com carinho e saudade. Toda porta fechada enterra um pouco de uma cidade. E se cada despedida faz aumentar a dúvida de para onde vai a vida noturna da cidade, que parece perder uma batalha após a outra, nestes tempos de pandemia a questão se faz ainda mais nebulosa. Mas o futuro é assunto pra mais tarde.

Lembremos do Mississippi como a marca que colocou Caxias como improvável destino para alguns dos últimos remanescentes do blues original, Que trouxe ao interior do Rio Grande do Sul músicos do quilate de John Primer, Bob Stroger, James Cotton e Mud Morganfield, este que eu vi emocionar toda uma plateia por sua semelhança, em fisionomia e voz, com o maior de todos, o já citado Muddy Waters, seu pai. Lembremos também de um bar que nunca abriu mão da música ao vivo e que não faria sentido com o palco vazio. Que fez surgir novas bandas e novos músicos cujo sonho era se apresentar na meca brasileira do blues.

Não ter a perspectiva do próximo show no Missi deixa um pouco órfão qualquer músico de blues, não importa a assiduidade com que subisse ao palco eternizado na memória pelo piano quase decorativo, pelo quadro da mítica Highway 61, por Pedro Strasser na bateria ou no sax, ou de Marcos Petta no baixo, só para citar os anfitriões do Clube do Blues da Serra, que agitou algumas das noites derradeiras.  

Se toda jornada pessoal tem um pouco de missão, a comoção nas redes sociais após o anúncio do fim da era do Mississippi na Estação Férrea deixa claro que o Toyo e o Pari já podem se dar por satisfeitos, pois cumpriram a sua. Mas a gente torce para que eles ainda não a tenham por encerrada. 

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