André Costantin: Rio Tega - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião28/05/2020 | 07h00Atualizada em 28/05/2020 | 07h00

André Costantin: Rio Tega

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

A bicicleta e o isolamento destes dias levam-me ao reencontro com o rio da cidade: o Rio Tega. Deixo de ser um ciclista de matilha. Volto às origens. Solitário, enveredo pelos caminhos de Monte Bérico, por uma estrada que vai ficando cada vez mais esquecida no tempo e no espaço. No fundo do vale, manchado de luz pelos parreirais, chego à ponte: ali está o Rio Tega, em todo o seu esplendor.

A montante, o rio vem em corredeiras, espraiado, caudaloso. Traspassa a ponte, para então estreitar-se entre os paredões de pedra e uma minúscula praia de seixos, ponteada pelos mais variados resíduos domésticos e industriais da nossa particular civilização.

Leia mais
André Costantin: jogo ruim
André Costantin: baleia cósmica

É possível que as novas gerações, as classes escolares, ou até muitos adultos urbanos de Caxias, não saibam da existência deste nosso rio, que foi escondido, planificado, detonado a dinamite em mais de um século de faina econômica. Mas que assim que se vê livre das garras da cidade, ressurge com uma força ancestral, de antes dos humanos olhares destas terras.

A bike troteia pelo caminho que margeia o Tega, na direção de Mato Perso. Logo, um lixão – essa praga que insiste em voltar ao nosso horizonte –, demarca o lugar onde antes havia a entrada para um moinho em ruínas, ao pé de uma cascata. Ali, muitas vezes andei, ainda jovem, com olhos de arqueólogo e uma desconfiança de cobra nas canelas. Muitos anos depois, voltei àquele lugar de minhas mitologias, filmando o escultor João Bez Batti, em suas colheitas de pedras de basalto vermelho. O mais lindo que há, cortado, lapidado, impregnado com o cheiro da poluição do Tega – batizado, por João, de Basalto Sanguíneo.

Sigo pelo vale do Tega, depois Santiago, e, no fundão do vale – já Flores da Cunha – cruzo novamente o rio, mais encorpado, então o Rio Caxias. Lembro do tempo de estudante da UCS, aquela vontade de mudar o mundo; pesquisávamos o que teria sido o Tega no mapa de Caxias. Desde a nascente, que começaria no pátio de uma casa no bairro de Lourdes. Depois serpenteava a história e o relevo da cidade, rumo Oeste.

Eis uma dívida que tenho contigo, Tega: realizar uma expedição de registros e conhecimento, desde teu início até o encontro das tuas águas e memórias com o grande destino, o Rio das Antas, abaixo da curva do Cachoeirão. Começo a escalada a Santa Justina, com os versos de Ítalo Balen na mente: “De repente, na praia (venho lá das montanhas, por isso entendo o mar); ouço o mar que me pergunta: – e o Rio Tega, onde está o meu Rio Tega?”.

Leia também
Projeto Arte Solidária alia incentivo à cultura local com solidariedade
Projeto caxiense Drum Beat Dance mostra primeiro som nesta quinta
Live solidária dos caxienses da Yangos é atração nesta quinta-feira, nas plataformas do Sesc-RS

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros