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Opinião21/05/2020 | 07h00Atualizada em 21/05/2020 | 07h00

André Costantin: jogo ruim

Tem muita gente sentindo falta de ver um futebol, nem que seja um jogo ruim, no modo stand-by cerebral

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Dedos no teclado, mas levo a mão esquerda ao bolso da camisa. Encontro um prego batido em ponta de arpão e um pedaço de isca artificial dedicada às traíras.

O prego é sobra dispersa das últimas noites na oficina, em torno da montagem de uma baleia tecnobarroca de madeira e metal – sobre a qual escrevi na semana passada.

Tenho trocado dias por noites. E nem posso culpar a quarentena por isso; sempre foi uma queda particular.

Por isso e por outras manias os vizinhos de condomínio alimentam suspeitas sobre minha pessoa: de que eu não trabalho, que eu viveria de uma herança, ser antissocial. Eles têm razão.

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O pedaço de isca – corpinho emborrachado de anfíbio, para ser espetado no anzol – é cúmplice das minhas tentativas recentes no lago perto de casa, quando o sol aquece os dias do outono.

Escrevo assim, curtamente, porque sepultaram a língua portuguesa e a própria linguagem na cova plana dos smartphones. Hoje mais é lido quem escreve mal.

Tem muita gente sentindo falta de ver um futebol, nem que seja um jogo ruim, no modo stand-by cerebral.

O arpão de prego e a isca no bolso, coisas de um camponês urbanóide e anacrônico, sugerem que talvez eu não devesse alimentar veleidades literárias.

Recebo e-mail virulento de um leitor que se diz “patriótico”, tão ofensivo, tão mal escrito, que aí entendo e aceito a minha missão: escrever e ajudar a salvar esta cidade da feiura.

O noticiário traz um alto executivo da indústria farmacêutica, de sobrenome Mussolini, chorando os butiás nos bolsos por causa da São Paulo quase parada. Escrito e creditado no vídeo, com todas as letras: Mussolini. Será ficção?

O Brasil quer imitar os Estados Unidos mas consegue ser uma outra Itália, com muito apego aos defeitos e sobrenomes “no tocante” à mamma-pátria.

Um dia o palhaço Bozo, sua prole e parças, serão julgados por crimes de lesa-pátria (humanidade, idem). Então pagaremos impostos para manter clínicas de desintoxicação mental para quase um terço da população do país. Nossa pandemia avant la lettre. Até lá...

A tevê anuncia série romântica: “Todas as mulheres do mundo”. Um homem e seu harém, com a velha desculpa do macho/ser-poético. Vamos adaptar a obra para “Todos os homens do mundo”. Uma fêmea, poeta, devoradora. Que tal?

A pandemia revela um Brasil fantasma. Milhões de brasileiros não existiam. Estavam fora de todos os cadastros, de todos os sistemas. Só serviam para votar.

Por falar em Brasil, haverá uma primavera brasileira?

Ai que saudade de um jogo ruim.

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