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Opinião14/05/2020 | 07h00Atualizada em 14/05/2020 | 07h00

André Costantin: baleia cósmica

Vejamos se a crônica, que começava outra, dá conta dessa história

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Tudo começou faz muito tempo em um cemitério no Sertão de Lages. E chegou aqui, agora, no sonho relatado pela pequena Aurora, que recém acorda e desce a escada de madeira – onde vivem sentados os fantasmas do sótão. Vejamos se a crônica, que começava outra, dá conta dessa história.

Caminhando naquela distante morada dos mortos, cujas lápides e mausoléus revelavam antigas misérias e fortunas de uma cidade, e onde no centro havia um túmulo de luxuoso granito virado ao contrário – por tratar-se de um suicida, diziam –, eu pisei em uma saliência no chão: era um pequeno Cristo soterrado, comido pelo tempo, finamente entalhado em madeira. Não tinha os braços – em seu duplo abandono, pelo Pai e pelos filhos idólatras, fora enfim liberto da cruz.

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Desde então o Cristo dormia em relicários das casas que habitei. Nestas semanas castigadas pela pandemia global e pelas chagas vivas do nosso corpo arcaico chamado Brasil, resolvi libertar os monstros dos armários. Rompi o sono de décadas de uma bigorna que serviu ao bisavô e ao avô, ferreiros. Entrei a bater ferros que eu guardava, imaginando uma nova morada para o meu Cristo estraçalhado.

Tendo como base uma raiz côncava lapidada ao acaso por um artesão, a qual sugeria-me a forma de uma baleia, fui acoplando os metais à madeira, entre outros componentes óticos e eletrônicos de aparelhos que eu consumi – cúmplices tecnológicos da minha história. Tudo vai resultando em uma espécie de cachalote cósmico, leviatã; insinuação do mito bíblico de Jonas, devorado, viajando no ventre do monstro marinho, reconfigurado na saga universal de Moby Dick, de Herman Melville.

Não sei se, ao fim dessa jornada, poderei chamar o resultado de “escultura”. Mas o devaneio salva-me do real. Ontem, ficamos na oficina, eu e Aurora, até à meia-noite. Ela, entre suas tintas, pincéis e pedacinhos de madeira; eu, na bigorna e no caos da bancada de marceneiro. Em silêncio, ali, o Cristo mutilado, ancorado entre ferros nas entranhas da baleia.

Então, agora pela manhã, quando iniciava esta crônica, que era outra, Aurora veio contar-me o seu sonho: eu, papai, construía um Lobo Mau mecânico; corpo de pedra e cauda de papel. Mais maluco do que malvado. Barba de escamas de peixe, marrom, comprida. O lobo caminhou sozinho. O pai entrou no lobo para controlá-lo. Subimos a escada de madeira. O lobo escorregou, caiu e se desmontou. Uma pedra grande rolou em cima do pai. Ficou esmagado, sem ar. Então enchemos ele, que se transformou em um balão.

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