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Opinião07/05/2020 | 07h00Atualizada em 07/05/2020 | 08h51

André Costantin: Aldir, Aldyr 

Dois lutos que flecham os corações de "nós-outros"¿ brasileiros - melancólicos são-sebastiões de osso e carne que somos, crivados pelos espíritos do futebol e do samba

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Quando eu passo por um terreno de terra crua, grama ou simples capim (desde que seja um interstício mais ou menos plano no grave relevo da cidade), dois extremos atravessam o meu sentimento: a infância livre jogada nas várzeas da Vila Kaiser e o adulto cansado que venho arrastando desde a trágica epifania do 7x1, de Alemanha e Brasil, na copa de 2014.

Em campo, o desastre prenunciatório deu-se justo quando as multidões passaram a vestir a camisa dita “canarinho” como símbolo de um sonhado país sem corrupção e talvez mais justo. Num lance muito rápido, a camisa amarela foi sequestrada por entes políticos e outros vírus que habitavam os intestinos da nação e que enxergaram, naquele estremecimento do grande corpo, a chance de vir à luz – pelas bocas e telas dos smartphones.

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Hoje, presos no labirinto das nossas entranhas sociais, vemos com os olhos tontos daquele 7x1 sem fim os pequenos exércitos de zumbis marchando em camisas amarelas da seleção brasileira, em nome de nem sabem o que, de quem ou porquê. Bradam por um Brasil livre, pela ditadura militar. Será demência? Tempo atrás pedi uma cerveja e me ofereceram uma artesanal, de nome “7x1”, com rótulo e tudo. Sim, somos loucos e sádicos.

Nossa arte do futebol suspirou até lá pela copa de 1982. Tudo virou empresa, negócio. Os capins da cidade estão vagos. No condomínio da minha filha há um campinho com goleiras e tela de proteção, vazio – um sonho daqueles guris do Kaiser que jogavam num terreno inclinado a 25% ou mais. Os garotos, homens feitos, foram lobotomizados pelos games em quartos escuros, entre armas e tiros. E segue o jogo. Demos nisso.

Muitos já leram e definiram traços da nossa complexa (ou extinta) brasilidade pela cultura do futebol. Entre eles, dois mestres escritores e artistas cujos nomes agora se casam em transparência de luz: Aldyr Schlee (1934-2018) – o revelador do Pampa, ao sul da nossa identidade; e o recém-encantado Aldir Blanc (1946-2020) – intérprete do Rio de Janeiro, coração do Brasil.

Criador da mística camisa amarela, Aldyr Schlee sentia profunda tristeza pelo destino de sua obra mais popular. Agora, vai-se Aldir Blanc. No seu vasto testamento, nos deixa o “Tá lá o corpo estendido no chão; em vez de rosto a foto de um gol” – De frente pro crime.

Aldyr, Aldir. Dois lutos que flecham os corações de “nós-outros” brasileiros – melancólicos são-sebastiões de osso e carne que somos, crivados pelos espíritos do futebol e do samba. E algo além. O mais da nação são gritos de ordem.

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