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Opinião12/05/2020 | 07h00Atualizada em 12/05/2020 | 07h00

Adriana Antunes: sorrir apesar de

Tenho encontrado todo tipo de olhar: os distantes, os dispersos, os angustiados, os chorosos, os tristes, os saudosos, os amorosos, os de raiva e os que sorriem apesar de

Em tempos de pandemia e todos usando máscara presto atenção ao sorriso das pessoas que encontro. Sorrir com a boca é fácil, inclusive pode não ser verdadeiro, afinal, quantas vezes nós também sorrimos sem ter vontade, daí a expressão sorriso amarelo. Mas agora que andamos todos mascarados ou sorrimos verdadeiramente com os olhos ou não conseguimos mais enganar ninguém. Tenho encontrado todo tipo de olhar: os distantes, os dispersos, os angustiados, os chorosos, os tristes, os saudosos, os amorosos, os de raiva e os que sorriem apesar de.

O budismo, sabiamente, nos lembra que somos influenciados pelo sorriso do outro, afinal, o rosto das pessoas ao nosso redor, mesmo escondido pelas circunstâncias atuais, molda nossa paisagem interior.

Na psicanálise costumamos estudar e refletir sobre como o sorriso da mãe transmite contentamento ao bebê, que assimila e sorri de volta. Quando encontramos alguém que está tranquilo em meio à crise e a dor e essa pessoa sorri, vamos alimentando nossa reserva de tranquilidade, reduzindo nossos medos, acalentando nossa criança interior e afugentando os monstros detrás do armário. É como se acendêssemos a luz, no caso, uma luz interna, que aquece e ilumina. Há pessoas que são assim, luz e o seu brilho nos chegam pelos olhos que sorriem.

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Essa busca exagerada pela seriedade é uma necessidade humana que se tornou permanente e generalizada. Passou a ser uma prerrogativa do mundo adulto, afinal, parece que só podemos confiar numa pessoa que aparente é séria. No entanto, sorrir e manter o bom humor são das mais sofisticadas e eficazes maneiras de manejo das emoções negativas. O riso é uma forma que temos de lidar com as ambiguidades que geram tensão, sobretudo quando estamos vivendo uma situação tão distópica como a nossa. A morte em massa, os descasos, as perdas tudo isso nos abala profundamente.

Mas não proponho aqui rirmos da própria desgraça. O senso comum diz que o brasileiro teria essa peculiaridade, afinal somos constantemente vitimados pela riqueza de adversidades a que somos submetidos como nação. Mas a maioria de nós não tem talento para fazer comédia com os problemas que enfrentamos. Não falo do riso jocoso que rechaça e fere. Falo do sorriso que acolhe, compartilha da mesma dor e que mesmo assim encontra dentro de si uma certa beleza. Conseguir sorrir é tentar manter-se humano e repensar os significados, mesmo os negativos. Somos um poço de contradições, rir de si mesmo e sorrir para o outro é uma forma de baixar nossas armas e armaduras e dar espaço para a vida, enquanto ela ainda existe e nos alcança.

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