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Opinião17/04/2020 | 13h00Atualizada em 17/04/2020 | 13h00

Tríssia Ordovás Sartori: não quero voltar à normalidade

Valorizaremos quem se preocupa conosco. Estaremos mais sensíveis aos anseios dos outros. Ficaremos mais atentos aos que precisam de ajuda 

Tríssia Ordovás Sartori: não quero voltar à normalidade Fábio Panone Lopes/Especial
Valorizaremos quem se preocupa conosco. Estaremos mais sensíveis aos anseios dos outros Foto: Fábio Panone Lopes / Especial
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Eu não quero voltar à normalidade. Ao menos não à normalidade de antes da pandemia. Estou morrendo de vontade que o isolamento social acabe logo para poder encontrar e beijar e abraçar as pessoas queridas, mas espero fazê-lo de um jeito diferente. Isso que me considero superafetiva, daquelas que dá beijo de verdade nas bochechas alheias.

O “novo” normal vai ser bem mais cheio de sentido e intensidade. Tenho a impressão de que estaremos mais conectados ao momento presente durante nossas interações. Não consigo imaginar uma mesa repleta de amigos com alguém preferindo conferir stories no Instagram a ouvir as histórias que estão rolando ao vivo. Nem espero abraços que não sejam apertados e duradouros, com os corações alinhados e a energia boa fluindo. Ninguém vai ter pressa ou compromisso mais urgente para sair rápido de almoços em família – eles não terão hora para acabar, todo mundo vai aproveitar para tirar fotos sem motivo nenhum, apenas para celebrar os encontros e guardar o bom momento.

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Vamos cumprimentar nossos vizinhos com afeto, sentiremos uma real empatia pelas pessoas com quem trabalhamos. Não faremos mais perguntas retóricas: ao questionar como a pessoa está, prestaremos atenção na resposta e será uma curiosidade genuína. Valorizaremos quem se preocupa conosco. Estaremos mais sensíveis aos anseios dos outros. Ficaremos mais atentos aos que precisam de ajuda. Teremos aprendido que também podemos ser ajudados, em diferentes níveis. Saberemos como vale a pena cultivar amizades ao longo da vida. Nos alegraremos com um simples barulhinho de taças brindando.

Daremos mais valor aos prestadores de serviço, às mães em tempo integral, às mulheres que têm vidas muito diferentes das nossas. Teremos desenvolvido outra relação com o dinheiro e o consumo, com as nossas casas, com o nosso interior. Já não nos cobraremos tanto, saberemos que uns dias serão incríveis e outros nem tanto e tudo bem, viveremos melhor com nossas limitações e habilidades. Aceitaremos as limitações alheias de forma mais generosa. Experimentaremos uma plenitude e energia sem precedentes quando isso tudo passar. Conseguiremos ressignificar até o essencial, como poder respirar sem precisar usar máscara.

Voltar ao normal? Não, obrigada. A menos que seja à essa normalidade forjada em meio ao desconforto do distanciamento.

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