Sandra Cecília Peradelles: você tem medo de quê? - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião13/04/2020 | 07h00Atualizada em 13/04/2020 | 07h00

Sandra Cecília Peradelles: você tem medo de quê?

Tenho medo do que é, do não é, do que pode ser e do que não foi. Medo da vida e medo da morte

Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

Eu costumava dizer que não sabia do que eu tinha medo. Esbravejava, sorrindo de canto, que nada temia e, que, se temesse, desconhecia. Não temia homem, nem bicho, muito menos o que o futuro me traria. Sim, carregamos dentro de nós, adultos, um sem fim de imaturidade e pequeneza, não?

Mas, ora, ora, a vida não tarda em nos fazer pagar a língua, e a cusparada pra cima não demora nos lambrecar a cara. É que a terra gira! Vejam bem, cá estou, gelada de medo. Tenho medo do que é, do não é, do que pode ser e do que não foi. Medo da vida e medo da morte. Totalmente estática e amedrontada.

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Li muitos livros e vi muitos filmes. Realidades como a que estamos dividindo, enquanto civilização, representadas ali. Mas eu, tão racional, ligada em demasia ao chão onde piso, não acreditei que pudesse presenciar a instabilidade do universo perante um inimigo que não se pode ver, mas nos espreita e não perdoará um simples passo em falso.

Estamos no mesmo barco e ele tá afundando. Alguns chorando, outros não. Uns apavorados, outros resistindo buscando a sanidade. Muitos sendo solidários com os mais fracos. E uma quantidade considerável de gente em negação. Todos compartilhando, ao seu modo, o mesmo sentimento: medo.

E lá vamos nós, em meio à iminência do contágio por um vírus sem cura, a quebra possível da economia mundial e uma quarentena ainda sem data para acabar. Cada um temendo o que lhe é mais caro. E você, tem medo de quê?

Eu, privilegiada por poder estar com a minha filha em casa, temo por nós, pela nossa saúde física e mental e pelo incerto futuro. E, por vezes, me sinto só. Mas, caríssimos, a solidão é o menor dos problemas. É a primeira vez na minha vida que tenho mais medo da realidade do que da minha imaginação.

Observo as pessoas perambulando nas ruas, parecem bem. Não estão. Eu sei que não. Vão seguindo negando, não querem parar. Parar implica em aceitar a veracidade dos fatos. Isso dói. Não as culpo. É que estão apegadas às suas rotinas, querem suas vidas de volta, é a única que elas têm. Não enxergam agora o mal que podem estar fazendo à comunidade quebrando uma quarentena tão grave como esta.

A estas pessoas, sinto em ser portadora da notícia: nada será como antes. Uma pandemia quando vem, entra para a história, nos faz tão pequenos quanto realmente somos. É o espelho que não queremos olhar.

Agora é inevitável, a pandemia já chegou, a covid-19 está por aqui. Não nos deixará até que a lição seja aprendida. Qual lição? Ainda não aprendi, estou cega de medo. E é tanto ruído que não ouço bem. Mas, há em mim um órgão muito eficiente. Meu coração quer abraçar o mundo, dar colo a esse sofrido planeta.

Meu peito retumba de dor a cada filho, filha, pai, mãe, avó e avô que o caixão ganha. E passa de 100 mil mundo afora. Sinto como se fosse meu cada defunto. Não choro, sou pouco dada às lagrimas. Na superfície, forte, controlada, e lá dentro de mim, uivo, me debato, não aceito: e se fosse eu? E se fossem os meus?

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