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Opinião24/04/2020 | 21h02Atualizada em 24/04/2020 | 21h02

Nivaldo Pereira: ventos de comunhão

Devem pipocar ainda mais confrontos furiosos entre contenção e ruptura

Nivaldo Pereira: ventos de comunhão Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Sentei para escrever esse texto, mas o vento trouxe um cheiro de pipoca do apartamento vizinho, atiçando-me a vontade. Pensei: ok, estamos no signo de Touro, o texto vai fluir melhor com os sentidos físicos bem atendidos. Panela no fogo, milho estralando, veio o insight. A panela implodindo era uma ilustração possível do céu atual. Já nessa primeira semana taurina, a Lua Nova fez subir temperatura e pressão no mundo, ao potencializar a tensão já extremista entre Urano, em Touro, e Saturno, em Aquário. Devem pipocar ainda mais confrontos furiosos entre contenção e ruptura. Esse aspecto planetário também evidencia as arestas entre o princípio da posse individual taurina e o da partilha social aquariana: o que é meu versus o que cabe a todos.

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Pipoca na tigela, de volta ao computador, já não havia como seguir na proposta anterior de texto. Urano funciona assim, como um lampejo inesperado que muda o rumo das coisas. E a pipoca me trouxe à mente uma historinha sobre milho, que também ilustra aspectos do céu de agora. Conta de um fazendeiro que ganhou fama pela qualidade do milho que produzia. Ano após ano, sua safra era disputada pelos compradores, numa região de plantadores de milho. A produção dos vizinhos era boa, mas não excelente como a dele, mesmo com as mesmas condições de clima e na mesma terra. No mercado, quiseram saber: qual era o segredo daquele fazendeiro?

Sem rodeios, o homem explicou que tudo se resumia em ter as melhores sementes e na partilha destas com os vizinhos. Como assim, partilha? E ele contou que a polinização do milho se dá pela ação do vento. Não adianta apenas plantar boas sementes, pois o vento irá trazer o pólen fecundante do milharal do vizinho. Se as sementes deste forem inferiores, não há como ter uma safra de primeira. Então, o segredo é doar sementes de primeira aos vizinhos de todos os lados. E por que os outros vizinhos não colhiam espigas ótimas como as dele? Porque se recusavam a partilhar as boas sementes com os outros vizinhos de mais adiante.

Essa alegoria enaltece a ideia de rede de cooperação e solidariedade que caracteriza o signo de Aquário, regido tanto por Urano quanto por Saturno. É a consciência de que o bem comum deve estar acima das mesquinharias individuais e das competições. Quando repartimos as conquistas, ficamos mais ricos de significado na vida. Quando investimos na partilha de saberes, ficamos ainda mais sábios. Não pode haver a verdadeira paz se houver dores alheias do lado. Numa concepção de mundo aquariana – como deve ser a da longa era que vai chegando –, precisamos transcender a noção de “nós” como oposição a “os outros”. Queiramos ou não, somos seres conectados. Somos uma só humanidade. Sem a materialização dessa verdade, nossa colheita pessoal sempre será egoísta e inferior.

A imagem de um vento polinizador também evoca Aquário, signo de ar afeito a mudanças sociais. É o vento que traz as respostas, como diz a célebre canção Blowin’ in the Wind, do geminiano Bob Dylan. A letra da canção provoca com perguntas. Quantas vezes um homem pode virar a cabeça, fingindo não estar vendo? Quantos ouvidos um homem deve ter, até poder ouvir o povo chorar? Quantas mortes ainda serão causadas, até que se saiba que já morreu gente demais? Então, my friend, agora que tememos o vento que vem dos outros, agora que nos recolhemos pela vida, é quando mais nos cabe refletir sobre que rede de relações queremos para o futuro. Até que novos ventos nos conduzam para lá.

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