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Opinião10/04/2020 | 19h45Atualizada em 10/04/2020 | 19h45

Nivaldo Pereira: Páscoa estranha

É a celebração do fogo vivificador, festividade de muitas culturas antigas, nesta mesma época

Nivaldo Pereira: Páscoa estranha Luan Zuchi/
Foto: Luan Zuchi
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Num mundo convulsionado e estarrecido, a Páscoa de 2020 chega esquisita. Mortes, isolamentos sociais e tantas incertezas abalam o tradicional clima de congraçamento e reafirmação da esperança. É capaz de nem o coelhinho das crianças sair da toca! No entanto, mesmo que se dilua a parte formal da celebração, seu significado mais profundo nunca esteve tão evidente. Ou talvez nunca tenha sido tão necessário resgatá-lo. Na presente tensão planetária, quando faz escuro lá fora e o medo inunda corações e mentes, é quando mais precisamos das promessas de luz evocadas na Páscoa, para muito além da sua simbologia religiosa.

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Como sempre, a Páscoa ocorre na primeira Lua cheia após o Equinócio de Áries. É a celebração do fogo vivificador, festividade de muitas culturas antigas, nesta mesma época. No caso do rito judaico, iniciado por Moisés, mais de um milênio antes de Cristo, a Páscoa envolvia um cordeiro a ser sacrificado – vivia-se a Era de Áries! O rito se integrava à libertação dos hebreus da escravidão no Egito. Já a cerimônia pascoal cristã, iniciada por Jesus no alvorecer da Era de Peixes, acrescentava ao sentido anterior a promessa de ressurreição após a morte física. Havia pão e vinho na mesa – e, como a materializar o simbolismo da então nova era, o peixe virou obrigatório na Semana Santa.

Agora, a Era de Peixes se encaminha para seu final, num ciclo de mais de dois milênios de duração. Estamos em transição, no limiar da Era de Aquário, que promete um futuro mais voltado ao humano e às estruturas sociais. Para que isso se construa, urge elaborar os aprendizados da era que se encerra. Dentro ou fora das religiões, precisamos resgatar as lições do avatar máximo da Era de Peixes: Jesus Cristo. Peixes é a negação da individualidade, como o mais dissolvente e empático dos signos. Ao novo mundo que se anuncia, precisamos oferecer amor universal, compaixão, tolerância, perdão e bondade. Infelizmente, até mesmo certas doutrinas ditas cristãs se afastaram completamente desses pressupostos. Tudo virou mercadoria no materialismo dominante. Tudo endureceu, egoisticamente.

Mas o movimento é lei da vida. Além da lenta troca de eras, também há o imediato contexto astrológico de demolição de velhas estruturas (Júpiter, Saturno e Plutão em Capricórnio), de dissolução de referenciais antigos (Netuno em Peixes) e de busca de novos valores (Urano em Touro). Em conjunto, essas configurações assinalam mudanças nos paradigmas coletivos, ainda que o caos seja a única evidência no momento. É uma passagem do que limita e escraviza o humano para outro estágio de consciência, mais justo e fraterno. É o expurgo do que mata e aniquila o espírito para o florescer do que o fortalece. Percebe a sintonia desse estado de coisas com o significado essencial da Páscoa?

A longa passagem de Netuno por Peixes – de 2012 a 2026 – ressalta os temas da era regida por esse signo. Se cresce o anseio por um salvador – com o devido perigo de mitificações e idealizações –, também se reforçam os temas da compaixão e do serviço. Peixes, no corpo, rege os pés. E há uma passagem bastante significativa nos evangelhos sobre isso, quando Jesus, em demonstração de humildade e entrega, lavou os pés dos apóstolos. A lição foi clara. Somos todos iguais. Sem uma postura fraterna e humilde, não há como criar uma sociedade melhor nem um futuro mais luminoso. Assim, que essa Páscoa bem mais reflexiva possa reforçar a nossa imprescindível opção pelo amor, pela união, pela vida.

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