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Opinião15/04/2020 | 07h00Atualizada em 15/04/2020 | 07h00

Ciro Fabres: novo mundo, ainda não

A mudança que o mundo necessita é mais embaixo, é mais na raiz, é bem mais profunda

Tem se falado maravilhas das experiências que brotam por toda parte neste período grave, de enfrentamento a uma séria pandemia. Sobre nossa capacidade de adaptação, de como somos inventivos, as iniciativas de solidariedade que vêm à tona em profusão. A ponto até de se decretar – isso dito aqui, ali e acolá – que o mundo nunca mais será o mesmo. Não será de fato, porque a experiência é histórica e será lembrada para a posteridade. Mas a sugestão de que nascerá um outro mundo, redimido de todos os maltratos em série aos povos, aos animais e à natureza, esta não tem amparo em bases reais.

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Não, os gestos de solidariedade não serão suficientes para fazer prevalecer uma nova ordem. A concorrência ainda é desleal e numericamente forte. Esses gestos marcarão presença, como sempre marcaram, e têm como característica proliferarem nas crises, grandes acidentes e tragédias humanitárias. A ocasião estimula a solidariedade, e a solidariedade responde. É um alento constatar que a solidariedade está aí, latente. Mas ela não é protagonista decisiva, não tem o condão de estabelecer novos valores e posturas. Ela, por si só, não produzirá a mudança que o mundo necessita. Logo tudo voltará ao normal. Lamento ser chato.

A mudança que o mundo necessita é mais embaixo, é mais na raiz, é bem mais profunda. Tudo o mais que temos visto agora, com o advento da pandemia, cantado em prosa e verso, home office e todas as maravilhas que a tecnologia proporciona e viabiliza, é mera adaptação. Algumas novidades ficarão, acrescentarão ferramentas para enfrentar a realidade. Isso é acréscimo valioso. Mas, mesmo assim, é questão cosmética, de forma, para o funcionamento da sociedade. O que interessa é conteúdo, é postura, é comportamento, é valor, é princípio, é menos desigualdade social, é mais igualdade de oportunidades, é generosidade, é respeito a todas as diferenças, é respeito... E aí prosseguimos mal, muito mal. Não cabe enfileirar exemplos negativos para comprovar a tese – como conspirar contra o distanciamento social. É que há os exemplos positivos também. Mas nos conhecemos bem e sabemos do que somos capazes.

Sei que estou sendo antipático. Mas qualquer boa expectativa ainda não tem fundamentação na realidade. Claro que estamos em uma caminhada, na construção para um mundo mais justo e melhor, e as experiências de agora produzem acúmulo de boas vivências e de conhecimento. Arregimentam forças. São importantes, mas não decisivas. O respeito ao outro ainda não prevalece no somatório geral, e isso voltará a ficar evidente tão logo arrefeça a usina de solidariedade ligada agora. Nossos valores deverão contemplar a valorização do outro. Só então haverá base real para uma nova ordem.

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