André Costantin: paradouro - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião30/04/2020 | 07h00Atualizada em 30/04/2020 | 07h00

André Costantin: paradouro

Nunca o tempo precisou de tanto tempo

De repente a felicidade é um cão vira-lata se refestelando no asfalto da avenida mais feia do mundo, em Fontoura Xavier. Fixo a imagem, ao volante, enquanto espero a companheira. Quase meio-dia, algum frenesi no centro da pequena cidade. Um carro passa raspando pelo cão, que então se desvira, como um peixe. Caminhões-pipa trafegam pelos acessos do município, no leva e traz da água. Antes, na ponte do Rio Fão, avistamos o leito de seixos, sem corredeiras. A estiagem.

Aproveito a viagem para visitar um amigo isolado em um paradouro à beira da BR-386. É o único hóspede, desde que a pandemia apertou o cerco. Tem saudades do Piauí, lugar da alma. Ele está no ar. Onde há uma poeira, que deve vir das estradas de chão que margeiam a autopista. Desde a Patagônia, talvez. Ou das areias do Cassino, em Rio Grande, sua terra natal.

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O amigo almoça duas cervejas, em honra à visita. Ele conta que por 40 anos o paradouro nunca tinha fechado as portas, dia e noite: ônibus, caminhões, toda a vida que rumava mais para o sul. E de lá retornava. Quando os velhos donos precisaram fechar as portas, as dobradiças estavam emperradas. Ninguém sabia das chaves, onde estavam, se serviam.

Então uma loucura ficou trancada do lado de dentro, outra do lado de fora do paradouro. Como a gente. Só alguns viajantes rompem a película, indo esquentar a chapa da a la minuta. Agora é esperar, meu velho. Nunca o tempo precisou de tanto tempo. O coração nas mãos, contaminado pelas notícias do nosso fracassado país. Em que curva nos perdemos?

Na volta temos que ir a Guaporé. Os milharais estão secos; aflitas, as tábuas das casas camponesas. Só as araucárias parecem serenas, enraizadas no passado da Terra. O normal do mundo nos é devolvido pela eterna voragem dos caminhões. Rever Guaporé é uma viagem dentro da viagem. A cidade que conheci na juventude, em excursões e torneios de futebol, virou um eixo asfaltado com edifícios que pisoteiam os sobrados que davam identidade à urbe.

A face inteira de uma quadra ostenta mansões no mais incrível simulacro de uma Miami subtropical (ou Jurerê?), ao sul de lugar nenhum. Mas em outros quarteirões ainda resiste a doce mistura das arquiteturas tradicionais de madeira e alvenaria, os chalés e algumas casas andorinhas de traços modernistas. Onde as ruas guardam o calçamento de basalto. Pedras bem cortadas. Quantas Guaporés! Lembro das pedras do terreno, em volta da minha casa: estão se desgrudando do chão, de tanta secura. Lá em Fontoura, aquele cão, feliz.

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