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Opinião16/04/2020 | 11h10Atualizada em 16/04/2020 | 11h10

André Costantin: ilhas

São lugares quase sempre vampirescos: pouca luz, solidão e longos turnos de clausura

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Passei parte da minha vida em ilhas. Não as ilhas dos mares que Herman Melville – escritor do clássico Moby Dick – visitou em barcos mercantes ou baleeiros. Minhas ilhas foram tecnológicas. Primeiro analógicas, com máquinas pesadas; depois digitais – pequenos redutos dedicados à montagem de filmes e outras narrativas visuais.

As ilhas de edição, ou de montagem, herdadas do cinema, são salas estanques que reúnem os acervos audiovisuais de um projeto, com os equipamentos e técnicos necessários à montagem de um filme. São lugares quase sempre vampirescos: pouca luz, solidão e longos turnos de clausura. Contrastam com o espírito de quem vive “atormentado por um contínuo desejo de tudo que é remoto”, do marinheiro Ismael, de Melville – e deste cronista preso às terras de um quintal do mundo.

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A primeira vez que espiei pela porta de uma ilha de edição – sem ser convidado, porque as pessoas ali precisam estar ilhadas dos outros – foi em adolescente, formado eletricista pelo Senai, indo trabalhar na antiga Videocolor Paganin. Era um tempo em que se consertavam aparelhos domésticos, que deviam durar. E o lugar, eclético, ia dos consertos aos “videotapes” de empresas, casamentos, eventos etc.

Acho que as frestas daquela remota ilha induziram a minha guinada vocacional. Joguei tudo para o alto e fui estudar jornalismo em São Leopoldo, na Unisinos. Fosse eu um rapaz cosmopolita, teria ido cursar cinema em Londres. Para um bom futuro de garçom, ao menos.

Dos jornais e da escrita à tevê, e depois minha empresa produtora, foi passo a passo. Seguiram-se anos em ilhas, carregando o piano de argumentos e invenções. A cada empreitada, arquitetavam-se as pesquisas e os trabalhos em campo – a parte divertida para as equipes de gravação. Depois, na companhia de um editor, dava-se a reclusão na ilha, onde a onça vai beber (ou não) a água das narrativas.

Náufrago destas ilhas distantes, muitas vezes mirei e interpretei o (meu) mundo. E também esta grande ilha mítica Hy-Brasil, mistério dos mares desde a Idade Média. Desde as corredeiras sujas aqui do Arroio Tega até os Açores, ao Amazonas ou à Antártida, em mapas do acaso, tudo sempre me interessou e moldou profundamente. Não sei se devia, se fiz o certo, se tais ilhas legaram algum sentido ou obra.

Mas em um aspecto fundamental as ilhas de Melville e as minhas se aproximavam: eram lugares cercados por imagens e sons de todos os lados, onde as correntes do real e do imaginário se misturavam e confrontavam. Assim naveguei.

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