André Costantin: ex-Pátria - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião09/04/2020 | 11h08

André Costantin: ex-Pátria

Por sorte não se costuma legendar os hinos na tevê

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Em nosso triunfal retorno à normalidade, se isso acontecer, um velho e mofado pacote moral que poderíamos descartar é o patriotismo. No lixo reciclável, talvez. Só que voltar ao normal de nós será a pior lição de casa que podemos cumprir como espécie que passeia por este planeta. Mas é isso o que vai se dar.

Quanto ao patriotismo, em geral só serve para criar e entronar bestas sanguinárias aqui e ao redor do mundo. Basta prestar atenção, em tempos de jogos olímpicos e copas do mundo, ao desfile de letras hediondas dos hinos das mais diversas pátrias, das civilizadas e chiques até as repúblicas bananeiras. São de tirar crianças e adultos da sala. Por sorte não se costuma legendar os hinos na tevê.

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Os cânticos nacionais são quase sempre terríveis odes à guerra e à morte. Muito sangue escorrendo, como catchup em filmes C. Antes aludissem às nossas gostosas e lindas bananas. No limite há um “lábaro que ostentas estrelado”. O resto são espadas, exércitos encanzinados, campos de batalha. Se encenar todos os hinos juntos, está feito o teatro da derradeira Guerra Mundial. Até o simpático povo uruguaio tem que engolir um macabro “Orientales, la Patria o la tumba!”, já no primeiro verso. Não combina.

As meninas e meninos da minha leva escolar herdaram o patriotismo modelado pelos militares, lá pelos idos de 80 – antes da geração Ritalina. Pequenas almas, a gente nem sabia que drogas nos aplicavam. Nada de filosofia ou boa matemática, línguas – latim, que fosse. Dá-lhe moral e cívica, ordem à bandeira, marcha do 7 de setembro, posição de sentido – aquilo tudo já não fazia muito sentido, mesmo para um pirralho que só chutava tampinhas de garrafa no pátio.

Tudo parecia pecado, como nas aulas de religião. Um pecado pátrio. Em adolescente, porém, ainda com meu sotaque dialetal, saquei uma variável libertadora: se meu bisavô miserável tivesse embarcado em um navio para Buenos Aires ou Nova Iorque, eu seria outro cidadão, cantando outro hino, em outro lugar. Não sem glórias e sangue (então, de Ketchup).

Daí que o discurso patriótico costuma ser de um vazio medonho. Tubarão para os cardumes. Nestes dias, por exemplo, para enfiar mais fakes da bolha bozoniana no whats do condomínio, um sujeito abriu com a seguinte pérola: “Antes de tudo somos brasileiros...”

Alguém aí, salta uma Bossa Nova que nos represente! Que tal Chega de Saudade, com João Gilberto. Quem? Aquele grande brasileiro, que nem mereceu luto oficial por parte do presidente. “Pátria amada, Brasil!”.

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