André Costantin: baile de máscaras - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião23/04/2020 | 07h00Atualizada em 23/04/2020 | 07h00

André Costantin: baile de máscaras

Estamos divididos, engasgados, coléricos, entrincheirados

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Não aos 11 anos de idade, como aquele longínquo menino baiano da música As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor (1974), que “já desconfiava da verdade absoluta” – porém mais ao sul, lá pelos 15, eu bem me lembro de olhar para as pulsações da Avenida Rio Branco, onde ela é mais suburbana, e me perguntar: será que um dia esse país vai descambar para o caos? Um dia vamos dançar geral?

Nunca tive os olhos fechados à pobreza e à violência. Na órbita da minha infância a gente sabia o nome de guerra e a escala moral dos marginais da redondeza, como se fossem patentes militares: do ladrão de passarinho ao chefe de quadrilha com cinco mortos e algum amigo delegado nas costas. As casas tinham papagaios. Eles anunciavam os crentes, os vendedores, os mendigos, em seus turnos pela rua – desde quando era chão batido, depois paralelepípedos, até a chegada medonha do asfalto.

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O verniz daquela rua mudou, da cidade, do país. O miserê e a riqueza continuaram desfilando na mesma passarela. Então, por mais ilusões que vivi e comprei, volto àquelas perguntas juvenis que não queriam resposta: sim, chegamos ao dia. Ou à véspera. Estamos divididos, engasgados, coléricos, entrincheirados. Agora uma pandemia nos força a usar máscaras reais, de qualquer jeito, regurgitando nossos vírus. Mascarados enfim, travamos nossas guerras santas e particulares. Não brigamos mais por ideias ou conceitos de sociedade, cultura ou economia, mas sim acorrentados às pernas por crenças e dogmas. Nossas piores barbaridades são relativizadas, como se fossem pontos de vista.

Terra Brasilis, avis rara das nações. Filho teu, desconfio que nem fomos bafejados pelo iluminismo e já erguemos uma capital no cerrado. Das caravelas aos concretos modernistas – tudo de antes e no meio foi consumido, queimado. Faltava a Amazônia! Mal firmamos os pés no mito da democracia e outra vez os generais estão com um sorriso maroto nas bocas, deixando entrever dentes caninos. Comerciantes ostentam nas lojas cartazes de favores e louvores aos policiais, não aos seus clientes.

Chegamos a uma nação policialesca, caminhoneira e sobretudo crente. Reencontramos os profetas. Ali está Antônio Conselheiro, máscara nos olhos, com insta e twitter. Nas últimas cenas desta Canudos continental (não leiam Os Sertões, é muita coisa escrita), vimos um presidente subir na caçamba de uma caminhonete e derramar saliva sobre 150 desocupados, invocando a ditadura & outras tolices. E tudo segue quase normal nesse baile de máscaras.

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