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Opinião02/04/2020 | 07h00Atualizada em 02/04/2020 | 07h00

André Costantin: anunciação

Vamos aos sonhos, aos mais tenebrosos, arrancar dos nossos porões e fantasmas enfim uma realidade

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Três cães pretos estraçalhavam meu braço direito, me arrancavam pela porta do carro em movimento. Eu entrava em uma loja da cidade, no piso tinha um caixão vazio com entalhes interessantes, sem dourados, algo tão raro; li no baixo relevo da madeira o nome de um velho conhecido sem muita relevância para mim. De repente aquilo bateu forte, paralisei.

Não se inicia ou faz uma crônica com retalhos de sonhos. Mas não ando aqui por brincadeira, o mundo em mutação. Nem para discorrer comentários na poltrona do tempo e dos fatos, com luvas e máscara de proteção. As boas práticas, ternas lembranças da infância, o bem que o bem aos outros nos faz – há cronistas para tais temas.

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Meus dedos infectam as teclas. Eu quero o teu coração aflito, tu, que não foge dos sonhos. Que não tem medo da solidão do ser. As crônicas que eu erro, acerto. Fio esticado. Diante de toda a ânsia das pessoas e dos idiotas grupais em voltar o quanto antes ao normal da vida e dos contratos sociais, eu digo: mergulhem nos seus sonhos. Psicanalisem-se, se possível. Até onde suas mentes permitam alcançar.

Não é possível que ao abrir os olhos voltemos de mãos dadas ao normal de antes desta Anunciação do fim da espécie. Que normalidade buscamos? Um amigo, que tem grana para três gerações, avisa que todos ficaremos pobres e doentes no redemoinho desta epidemia global. Queremos voltar ao normal para sermos ricos, saudáveis. É isso?

Voltaremos ao normal dos populistas e novos fascistas que negam a luz da razão, renegam a história, a arte, que desprezam os cientistas ambientais? – e por que não negariam agora as ciências da saúde, rumo ao caos? Voltaremos à normalidade do patriotismo canalha e do Brasil arcaico que se espelhou nessa figura hedionda que ornamenta o palácio presidencial? Voltaremos às boiadas e bolhas virtuais, assim, mansamente?

Voltaremos ao normal das superproduções do cinema, ao carro do ano? Voltaremos normalmente à Disney, às igrejas, aos beijos do príncipe, ao churrasquinho banal? Voltaremos às fábricas da Ode Triunfal, de Fernando Pessoa, às inteligências artificiais que nos torram o saco no telefone? Voltaremos ao teatro mundano das grandes misérias e fortunas, à classe média, ao bom senso camuflado nos extremos, ao estado das coisas onde e então o amigo não terá medo da pobreza nem se reconhecerá, por alguns segundos, nos olhos do morador de rua?

Vamos aos sonhos, aos mais tenebrosos, arrancar dos nossos porões e fantasmas enfim uma realidade. Senão outra, ao menos promissora.

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