Adriana Antunes: Sobre Scliar - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião21/04/2020 | 07h00Atualizada em 21/04/2020 | 07h00

Adriana Antunes: Sobre Scliar

O momento que estamos vivendo exige que deixemos de ser onipotentes

Cresci vendo minha mãe fazer crochê. Na infância não dava importância, na adolescência achava coisa de gente antiga, agora que também envelheci, faço nós por fora para desatar o que tem dentro. Claro que não crocheto com a maestria dela, pontos bem dados, tessitura justa, trama organizada e perfeito acabamento. Eu teço o desigual, o díspar, o estranho, o imperfeito. Não faço crochê para cobrir as janelas, faço para me despir de minhas próprias angústias, faço de pedaços , restos de linhas e muitas lembranças. Amarro em cada nó dado um pouco do sol das manhãs em quarentena, um tanto do canto dos pássaros, a brincadeira dos gatos com o novelo de linha, leituras interrompidas, risadas de crianças ao longe. Amarro um pouco do verde do jardim, uns fiapos da brisa do outono e o farfalhar das folhas ao final da tarde. Dou um nó após o outro como quem costura e integra a própria experiência de estar viva. Nestes momentos não leio notícias, me isolo do mundo, da covid-19, do medo da morte e da arrogância dos idiotas.

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O momento que estamos vivendo exige que deixemos de ser onipotentes. Sempre lembro de uma conversar rápida que tive, certa vez, com Moacyr Scliar. Falávamos sobre literatura, afetos, generosidade e então ele disse algo que nunca mais esqueci, que todo mundo deveria saber fazer algum ofício manual. Lidar com a matéria bruta, em essência, antes da transformação, nos ensina a ser mais humildes e menos arrogantes. Scliar, para quem não sabe, tinha como hobby ser marceneiro nas horas em que deixava de lado a persona do escritor e a profissão de médico. Assim, a partir do ensinamento, tento mexer com minhas agulhas e linhas e deixar com que elas me digam o que querem tecer e o modo como querem ser tecidas. Não há muitas regras, a não ser a do respeito ao processo.

Mexer com as mãos nos ajuda a pensar. E entre um nó e outro penso que já vivíamos um isolamento social bem antes disso tudo acontecer. O mundo já era outro. Mas, preocupados com nossa onipotência, necessidade e, talvez ignorância, não havíamos percebido. Habitávamos dias cheios demais. Hoje a realidade não comporta mais a ideia do “jeito que sempre foi”, como se pudéssemos voltar atrás, mesmo que um número imenso de pessoas proteste contra. Diante desta impossibilidade talvez devêssemos nos focar no aqui e agora. Descobrir porque somos tão insuportáveis para os outros e para nós mesmos é um bom começo. Talvez esse seja o momento de desapegar de velhos hábitos, acolher a mudança e mexer com as mãos, como disse Scliar. Assim, ao invés de querer controlar tudo, relaxamos e deixamos que a matéria nos molde. Quem sabe então, poderemos voltar à vida de modo mais humano e menos máquina.

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