Sandra Cecília Peradelles: sim, é possível ser feliz sozinha! - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião23/03/2020 | 11h07Atualizada em 23/03/2020 | 11h07

Sandra Cecília Peradelles: sim, é possível ser feliz sozinha!

Nos acostumamos a estar entre pessoas e acreditarmos que isso é estar bem

Caminhava pela casa vazia, sozinha. Havia um universo infinito entre mim e cada parede, móvel ou adorno. A casa se tornava imensa. Eu ali, pequena, mínima. Aquele sentimento gigante de pequeneza tomava conta de mim, me possuía. Nunca entendi muito bem, nunca soube como cheguei até ali. Essa cena se repetia, uma vez, diariamente, e eu fui ficando só, tão só, que deixei de ser solitária. Como posso não conseguir lidar comigo, se estou junto a mim desde sempre e a única certeza que tenho é que eu serei minha última companhia?

Nos acostumamos a estar entre pessoas e acreditarmos que isso é estar bem. Mas, vejo agora, que bem-estar é sentir-se preenchida, aconchegada dentro do próprio corpo. É vestir sua pele como quem porta o vestido mais caro da alta costura internacional.

Se relacionar com o outro é uma dádiva, mas qual tipo de relacionamento nos faz feliz? Certamente não esses que nos está posto: eu e outro formando um ser. Isso não existe! Eu e o outro somos dois, duas criaturas com histórias distintas, personalidades implacáveis, compartilhando o milagre que é viver.

O modo com que nos relacionamos ainda hoje, de uma forma geral, nos adoece: há uma dependência física e emocional. O outro sendo responsável por nossa satisfação, sucesso e felicidade. Não há possibilidade de se achar no outro o que nos falta. E essa é a grande ficha, uma hora ela vai cair.

Tenho feito um trabalho intenso de reconhecimento do meu eu. Revivendo minha história, e, principalmente, analisando quem me tornei a cada final de relacionamento. Não tem sido fácil, mas tem sido libertador. Fui obrigada a reviver dores profundas e erros impossíveis de se consertar, mas, também, enxerguei nitidamente que valorosa mulher sou. Sobrevivi aos piores dias e cá estou: a dona das minhas escolhas. Escolhi ser mãe, trabalhadora, compartilhar a vida com várias plantas e um gato. E escolho, a cada dia, não desistir de mim, nem do outro, nem do mundo. Tampouco, desisto do amor, de amar e novamente ser amada, de um jeito inédito pra mim.

Não me culpo pelas minhas dores. Pego-as pela mão e, juntas, sentamos no sofá, tomamos uma taça de vinho enquanto lhes faço cafuné. Vai ficar tudo bem, digo. E fica. Sempre fica.

Contudo, nessa autoterapia, resolvi me ouvir mais, estar mais comigo, olhar para o que faço com admiração. Tenho tido vontades incontroláveis de ser feliz sozinha. Aproveitar a vida ao meu lado, me tirar pra dançar no meio da sala, cozinhar ao som de Alceu Valença, balançando os quadris e cantando alto La Belle De Jour enquanto lavo a salada. E, quando tudo fica pesado, me dou o colo que eu preciso, o colo que mereço. Hoje eu entendo a urgência que é viver.

Sigo caminhando pela casa vazia. A casa é minha, os dias e as noites são meus. Tenho todo o tempo do mundo e sou a minha melhor companhia.

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